Caixinhas de betão” não convencem os canicenses que viram a população duplicar em quatro anos. Habitantes exigem uma cidade e não um estatuto.
A cidade ‘dormitório’ que viu o número de habitantes duplicar em quatro anos leva um ‘chumbo’ da população pela arquitectura descuidada, pelo caos urbanístico e sobretudo pela ausência de espaços verdes e de lazer. Até os turistas que trocaram os países da Europa Central por um lugar na ‘Contrata’, dizem que se adivinhassem a proliferação das “caixinhas de cimento”, teriam investido noutras paragens. Um quartel de Bombeiros, uma esquadra da PSP e uma sala de cinema são outras das reivindicações ouvidas na vila feita cidade há quatro anos.
“O Caniço está para o Funchal como está a Baixa da Banheira para Lisboa”. A alusão à cidade dormitório, de Pedro Viveiros, agente de viagens de 53 anos, não poderia ser mais acertada. O Caniço é uma das freguesias da Região onde a explosão demográfica mais se fez sentir.
Em 2001, data do último censos, a população residente fixava-se nos 11.586 indivíduos. A população presente era na altura de 13.100. Actualmente estima-se que na freguesia habitem mais de 25 mil pessoas, segundo inventaria o decreto legislativo regional que, em 2005, elevou a vila do Caniço à categoria de cidade.
Pedro Viveiros é natural de Machico e escolheu o Caniço para morar há 10 anos. O preço da habitação relativamente baixo, as boas acessibilidades e a proximidade ao Funchal – grande pólo de empregabilidade na Madeira – tornaram a cidade aliciante para morar. Bens que contrastam com o “crescimento demográfico quase insustentável” e a “ausência de infra-estruturas necessárias para a qualidade de vida como um posto de Polícia, um quartel de bombeiros, mais áreas verdes e de lazer e serviços tipo Loja do Cidadão”, nota o residente.
Outro dos reparos vai para o novo centro de saúde. É verdade que deu um salto qualitativo na vida das pessoas, mas é preciso funcionar bem. “Faltam médicos e enfermeiros, a assistência é básica e o tempo de espera é excessivo”, constata Pedro Viveiros, morador no Livramento, que lamenta a lentidão com que decorrem as obras de alargamento da Estrada do Garajau.
Cidade “anedota”
“Eu cá não gosto do Caniço. Quem chamou cidade a isto é um louco. Uma cidade onde não há Polícia, não há Bombeiros, não há um hospital, não há um cinema, só pode ser uma anedota”, atira a duas vozes, um casal com cerca de 50 anos.
O casal mora no Edifício Golden, no centro da freguesia. O prédio está ladeado por uma nova praça, junto à estação dos CTT, mas os moradores não têm tido descanso com o barulho do bar com esplanada onde há ‘karaoke’ pela noite dentro. Por causa do ruído, já têm o apartamento à venda.
“O que nos faz muita falta são os espaços lúdicos, verdes, de lazer”. Em suma, “faz falta um bom presidente da Câmara”, dispara o marido. “Este é do PSD, que é o meu partido, mas não presta para nada. Ele diz que isto é qualidade de vida, mas eu não sei o que é para ele qualidade de vida”.
Mas morar no centro da jovem cidade vale pela proximidade dos serviços e do comércio: “Temos as coisas muito à mão”. No centro, há tudo o que é preciso: “bancos, correios, supermercado, padaria, clínicas, igrejas, restaurantes, hotéis”, enumera a mulher.
Moradores-bombeiros
Waltraud Gold é austríaca e comprou casa no Caniço de Baixo há 38 anos, rendida ao sossego, à segurança e ao clima ameno. Integra o grupo de estrangeiros que desde os anos 60 investiram numa vivenda, na Contrata. Primeiro como casa de férias e depois como morada definitiva.
“Eu tenho visto polícia na rua, mas faz muita falta um posto de Polícia, porque a Madeira vive dos turistas e o que eles mais querem é sentir-se bem e seguros”, observa. “Nós muitas vezes dizemos que vivemos num cantinho do céu, mas cada pessoa que é assaltada aqui já não vai voltar”, adverte.
Outra das reivindicações é um quartel de bombeiros. “Um dia ardeu muita coisa aqui e lá em baixo também. Ligámos imediatamente aos Bombeiros, mas eles não vieram. Então nós ligámos as mangueiras dos nossos jardins e começámos a apagar o lume”, relata Waltraud. “Agora a minha conta da água disparou”, sorri.
“É o dinheiro que manda”
Então o que a trouxe cá? “A única possibilidade de comprar uma casa”, respondeu. Mas, se adivinhasse o futuro, tudo seria diferente. “Hoje em dia para viver, vou ser franca: já não comprava no Caniço de Baixo”. A culpa é das “caixinhas de cimento”. É assim que qualifica a arquitectura na cidade onde “fizeram tudo descontrolado” e onde “se vê que é o dinheiro quem manda”.
A cidadã austríaca guarda boas recordações do calhau dos Reis Magos e é uma de muitas vozes críticas da obra do enrocamento de calhaus gigantes que dá forma à piscina natural para crianças que o senso popular faz questão de baptizar de “poço da vergonha”. “Espaços de lazer para crianças brincarem, lá em baixo, não há nada”, além da ‘promenade’.
Depois, na cidade onde já ninguém conhece o vizinho, há défice de civismo. “Há muita confusão, as pessoas não respeitam as regras de trânsito, andam na estrada a uma velocidade terrível, falta Polícia para realmente multar as pessoas”. A cidadã austríaca exemplifica o modelo alemão: “são muito civilizados, mas eles não nasceram assim. Respeitam a lei porque foram multados, pagaram da sua algibeira e aprenderam”.
“Isto era um ror de tabaibeiras”
Luís Soares é natural do sítio do Castelo. Esteve emigrado durante 52 anos na Venezuela e hoje, aos 69 anos e de férias na Madeira, vê o seu Caniço muito diferente. “Esta gente agora vive bem não era como antes, em que havia pura pobreza. Hoje já vemos velhinhos irem ao supermercado com dinheiro para comerem. É outra vida”, observa. A transformação da freguesia agrícola em cidade dormitório, impressiona quem esteve tantos anos emigrado. “Eu quando saí do Caniço isto era um ror de tabaibeiras, de figueiras e de canas vieiras por aqui abaixo”, recorda estendendo o braço no sentido da Estrada da Ponta da Oliveira. “Nunca pensei que isto estivesse aqui”, indica o local onde está a nova padaria, o Super Sá, o Edifício Golden e um espaço com esplanada.
“Falta é respeito”. Maria Isabel da Silva, de 80 anos, está mais preocupada com a perda de valores da juventude numa freguesia onde a toxicodependência começa a ser motivo de preocupação. “Precisamos de uma pessoa que explique o que é torto e o que é direito. O que queremos é viver todos em paz, em segurança e em harmonia”, considera. Entende que só uma esquadra da PSP na cidade poderá garantir mais respeito pela lei e pela autoridade.
No rol dos novos canicenses entra ainda João Gris, 45 anos, que trocou Machico pelo Caniço de Baixo. “É uma grande qualidade de vida, bom clima, bons acessos, é sem dúvida uma das melhores opções para viver na Madeira”, elogia.
Elegeu o Caniço de Baixo para viver há três anos. “Talvez pelo sossego e algum isolamento”, justifica. “Houve uma altura em que se sentiu muita construção, mas penso que essa fase passou e hoje estão muito melhores”, considera.
PSP: “Eles muito têm que dar”
Opinião diferente tem Noé Soares, 72 anos, residente mesmo ao lado do Super Sá, no sítio da Vargem, no ‘coração’ do Caniço. “Nasci e vivi aqui e só faz falta um posto da PSP, porque quando é necessário, eles não aparecem”. O policiamento é uma realidade pese embora, os cerca de 40 polícias colocados no espaço exímio da esquadra de Santa Cruz são insuficientes para cobrir todas as freguesias do concelho: “Não é só no Caniço, eles têm serviço na Camacha, Santa Cruz, Santo da Serra, eles muito têm que dar”, diz. O largo defronte da igreja, que alberga os palcos dos arraiais, a praceta junto à Quinta Splendida e o largo da praça de táxis são três pequenas zonas de lazer no centro do Caniço. O resto são “caixas de petróleo” classifica Noé Soares os prédios sem telha que viu crescer ao longo dos 28 anos em que visitou a Região na qualidade de emigrado na Suíça.
Furtos preocupam mais
A transferência do cemitério do centro para a zona alta do Caniço (sítio dos Moinhos) é uma intenção adiada. Mas nem todos aplaudem a localização do futuro cemitério. “Eu cá mais queria que fosse sempre aqui, porque a gente sempre faz umas comprinhas e dá um saltinho ao cemitério”, diz Maria Rosa Câmara, 74 anos, moradora na Assomada. “Aquilo com jeitinho vai se arrumando”, acrescenta.
A verdade é que o crime dos vivos preocupa mais que o cemitério dos mortos. A Assomada tem sido uma das zonas fustigadas por assaltos. “Aquilo tem sido uma desgraça, num fim-de-semana faz agora um mês, levaram a furgoneta do meu vizinha. Às cinco e meia da manhã a Polícia telefonou a informar que tinha sido descoberta no Caniçal. Ele foi lá buscar mas estava um bocado destruída”.
Por isso entende que uma esquadra da PSP faz falta. “Ora se faz, mas a Polícia não pode estar sempre em cima dos larápios. Vê-se muita gente por ali em baixo, mas a gente não sabe se é gente de bem ou não”, verifica a septuagenária.
Saneamento básico precisa-se
São velhos problemas numa cidade nova. No sítio da Mãe de Deus, abaixo da capela que foi ‘engolida’ por prédios de habitação colectiva, sobram moradias onde o saneamento básico nunca chegou.
A Travessa Manuel Inácio da Gama enche-se de águas residuais sempre que as fossas sépticas atingem o ponto de saturação. “Antes de entrar no quintal de casa tenho de lavar os pneus do carro”, aponta um dos moradores. Há três anos que a população reivindica o direito ao saneamento básico. O problema vai sendo remediado pela Câmara, que compensa o “atentado à saúde pública” extraindo as águas dos esgotos através dos camiões cisterna.
Cemitério avança; variante parada há seis meses
A obra do novo cemitério, no sítio dos Moinhos, foi relançada esta semana após a suspensão provisória devido à falência da empresa adjudicatária. Isso mesmo ficou acertado numa visita técnica realizada na última segunda-feira, que juntou o vereador com o pelouro das Obras Públicas da Câmara de Santa Cruz e os engenheiros e arquitectos da nova empresa a quem foi confiada a obra de 1,6 milhões de euros.
Ainda ‘congelada’ está a obra de construção da variante ao centro do Caniço, lançada por 4,9 milhões e adjudicada por 3,8 milhões de euros. Os trabalhos pararam há seis meses devido à instabilidade do rochedo e a problemas de expropriação. “Não se sabe se é problema da escarpa ou se é falta de dinheiro”, conspira Noé Soares, que diariamente assiste ao congestionamento do trânsito junto à igreja paroquial.”
Ricardo Duarte Freitas, in DN – ed. de 20-9-2009