Archive for the ‘As freguesias’ category

JPP acusa PSD de votar contra interesses de Gaula.

January 4th, 2010

 

 

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- Foto DN -

“ÉLVIO SOUSA ACUSA PSD DE CUMPRIR INDICAÇÕES DA DIRECÇÃO DO PARTIDO. 

 

 

Os deputados da Assembleia de Freguesia de Gaula, eleitos pelo PSD, votaram contra o Orçamento e Plano de Actividades desta Junta de Freguesia para 2010, que agora é liderada por Élvio Sousa, eleito nas últimas eleições autárquicas pela lista do Movimento de Cidadãos ‘Juntos pelo Povo’ (JPP). Para Élvio Sousa, o facto dos membros do PSD terem votado contra os documentos acima referenciados, indicia que estes estão contra as medidas de âmbito social que o autarca considera fundamentais para ajudar a combater a crise nesta freguesia. “Ao votar dessa maneira, o PSD mostrou-se contra a comparticipação na aquisição de medicamentos dos gauleses (no valor de 7500 euros) e contra o apoio às famílias carenciadas (no valor de 3500 euros)”.

Contudo, a proposta passou com os votos favoráveis dos eleitos do JPP. Já no acto de tomada de posse como presidente desta Junta de Freguesia, Élvio Sousa garantiu à população local que estas propostas iriam ser colocadas em prática. Um anúncio recebido com grande entusiasmo pelos munícipes que enchiam o auditório do Centro Cívico de Gaula.

Perante esta votação, Élvio Sousa acusa os social-democratas de Gaula de estarem a obedecer a directrizes da direcção do partido. “A nossa interpretação é clara. O PSD, ao ter votado contra a medida de apoio aos medicamentos aos gauleses necessitados, votou contra o interesse social dos gauleses e está a obedecer a directrizes partidárias do Funchal, que são cegas nesta matéria.” E diz mais. “O verdadeiro gaulês não vota contra o interesse do Povo de Gaula”.

Medicamentos para breve

Depois destas duas medidas terem sido aprovadas em reunião da Junta e da Assembleia de Freguesia de Gaula, estão agora a ser redigidos dois regulamentos com vista a uma aplicação correcta destas propostas. “Estamos a trabalhar nos regulamentos que depois vamos enviar para a revisão jurídica. Só lá para finais de Janeiro teremos o regulamento pronto”. Por agora, Élvio Sousa não consegue adiantar quais serão os principais critérios de atribuição de medicamentos.

Sobre algumas críticas que têm surgido por alguns vereadores do PSD de Santa Cruz, que consideram que os medicamentos nunca virão a ser comparticipados pela Junta de Freguesia, Élvio Sousa ataca a partidocracia: “Quem dúvida, pratica a regra tão comum na partidocracia: promete simplesmente por prometer e dúvida de si próprio. Nós, ao nível do programa para a Freguesia de Gaula, nomeadamente no que concerne às competências do órgão junta, vamos cumprir ponto por ponto. E, em especial, a medida da comparticipação dos medicamentos, sobretudo na actual conjuntura e das necessidades sociais da Freguesia de Gaula”.

PSD explica votação

Na ausência dos dois principais social-democratas de Gaula da Assembleia de Freguesia, Gustavo Caires e Vânia Jesus, os esclarecimentos foram prestados por Humberto Bettencourt. O social-democrata começou por explicar o voto do PSD. “Votamos contra porque o orçamento prevê um aumento da receita de 26% relativamente ao último orçamento desta Junta de Freguesia. Queríamos saber de onde é que vinham as verbas para esse aumento e o presidente explicou que aguarda por um aumento das verbas atribuídas pela Câmara Municipal. Uma medida que ainda está para ser votada”.

Confrontado com o facto da votação indiciar uma posição contra as medidas sociais apresentadas por Élvio Sousa, Humberto Bettencourt nega essa situação. “Nós nunca pusemos em causa as medidas sociais que o novo presidente apresentou. Não votamos contra por causa dessas medidas”, adianta.”

Marco Freitas, in Diário de Notícias – Madeira, 4 de Janeiro de 2010.

Camacha, a freguesia e sua história

April 21st, 2009

- continuação daqui:

“A investigação bibliográfica refere que a actual freguesia da Camacha inicialmente pertenceu à jurisdição do Caniço. Ignora-se quando começou o arroteamento e povoação destas terras, mas supõe-se não ter sido logo após os primeiros anos da descoberta da ilha, na medida em que os terrenos do interior não foram sujeitos a uma imediata exploração agrícola. Todavia, presume-se que no último quartel do século XVI, já aqui existisse um importante núcleo populacional que justificou a sua separação do Caniço e a sua elevação a paróquia independente. Foi com o alvará Régio de 28 de Dezembro de 1676,  que a Camacha ganhou o estatuto de Paróquia.As propostas toponímicas para explicar a origem do nome não são unânimes, uma vez que existem os defensores da teoria que refere a origem do topónimo relacionada com um determinado sesmeiro local. Uma outra, aponta, efectivamente para uma influência filipina, nomeadamente de D. Fernando Camacho.

O Conselheiro Aires de Ornelas Vasconcelos nasceu na freguesia da Camacha a 5 de Março de 1866, filho do Conselheiro Agostinho de Ornelas de Vasconcelos e de D. Maria Joaquina Saldanha da Gama.Pela ascendência paterna pertence a uma das mais distintas familias madeirenses e pela linha materna é neto dos Condes da Ponte.Estudou no Colégio Campolide, cursou na Escola Politécnica e na Escola do Exército, foi despachado alferes em 1889, fazendo parte da Armada do Estado Maior.Consagrou-se especialmente aos estudos dos assuntos coloniais, efectuando no distrito de Lourenço Marques as diversas comissões militares e diplomáticas, aí deram-lhe maior autoridade, sendo considerado no nosso país, como um dos homens públicos com mais vasto e profundo conhecimento sobre as nossas questões ultramarinas sobretudo com as outras potências coloniais.Representou o governo Português no congresso militar que se reuniu em Madrid por ocasião do centenário de Colombo, fazendo mais tarde como delegado técnico, parte da célebre conferência de Haia. Participou em múltiplos eventos de carácter militar e de extrema importância para o país, contribuindo de forma decisiva para a expansão do território nacional. Foi também escolhido para, juntamente com o almirante Hermenegildo Capelo e o capitão da fragata Ernesto de Vasconcelos, formar a Comissão Técnica que foi discutir com os ingleses a questão dos limites de Barotze submetida à arbitragem do Rei de Itália. Foi parte activa nesta missão e especialmente na elaboração da memória justificativa dos direitos de Portugal.Aires de Ornelas foi eleito pelo conselheiro João Francisco, para gerir a pasta da Marinha e Ultramar. Foi titular desta pasta em 1907 e acompanhou o princípe real D. Luís Filipe ás nossas colónias ultramarinas da África Ocidental e Oriental.Depois de tantos contra-tempos em sua vida, como o envolvimento nos acontecimentos politicos nas tentativas de restauração monárquica, foi preso e durante longos meses esteve encerrado na Penitenciária e na Fortaleza de S. Julião da Barra.Colaborou em muitos jornais e revistas, tendo sido durante alguns anos director do Diário Nacional. Foi deputado pela Madeira na sessão legislativa de 1918 e foi também eleito deputado por um dos círculos do Continente, em Janeiro de 1922. Faleceu em Lisboa a 14 de Dezembro de 1930, sendo os seus restos mortais transferidos para o cemitério das Angústias no Funchal, no ano de 1934.Encontra-se em sua memória, uma estátua no Largo da Achada – Camacha.” – in “História da Freguesia”, in http://www.freguesiadacamacha.pt/

Santa Cruz, a freguesia e a sua história.

April 21st, 2009

… continuação daqui:

“O povoamento deste lugar ascende aos primórdios da colonização da Madeira; de 1425 a 1440, pertenceu aos seus primitivos cabouqueiros – povoadores que iam desbastando a mata de loureiros que cobria todo o vasto rectângulo que se estendia desde o actual sítio de São Fernando até os campos de Santa Catarina. Não é possível, dada a carência de documentos, fixar-se, ao certo, o ano da criação desta freguesia. Apenas as “Saudades da Terra” dizem que “Santa Cruz foi criada pouco depois de constituída a de Machico, tendo esta a precedência por ser cabeça da Capitania”. Deste modo Santa Cruz, “como freguesia autónoma, teria sido criada no segundo quartel do século XV”, sendo todos os historiadores unânimes em fixarem-lhe uma data posterior ao ano de 1450, tendo-se em conta que, então, Santa Cruz era ainda uma capelina curada, dependente da igreja matriz de Machico. Santa Cruz é uma das freguesias mais antigas da ilha e o seu rápido desenvolvimento, levou a rivalizar-se com Machico, chegando mesmo a suplantá-lo em tamanho e importância dos seus edifícios, bem como pelo movimento da sua Alfândega. O alvará régio de 5 de Dezembro de 1850 que estabelece o vencimento anual do vigário é o diploma mais antigo que se refere à freguesia de Santa Cruz. Sabe-se que, por carta régia de D. Manuel, datada de 25 de Junho de 1515, a pedido de João de Freitas, morador na freguesia de Santa Cruz, foi a mesma elevada à categoria de Vila e de Concelho. O orago de Santa Cruz é São Salvador, que provém da invocação da capela-mor da igreja matriz desta vila. D. João III, por provisão de 19 de Setembro de 1533, fez mercê desta capela-mor a João de Freitas, fidalgo de sua casa, em atenção aos serviços prestados e aos gastos realizados nesta igreja. A criação desta paróquia deverá ter acontecido no segundo quartel de século XV, pouco depois da constituição da de Machico. O alvará de 27 de Agosto de 1589 cria nesta paróquia um curato com 20$000 reis de côngrua. Também foi colegiada onde residiam um vigário, cura, seis beneficiados, tesoureiro e organista. Actualmente a freguesia de Santa Cruz comemora o seu dia a 15 de Janeiro, não como data referenciada a nenhum marco histórico, visto que não há informação sobre a sua fundação como freguesia mas por aquela data ser a festividade em Honra do Senhor Santo Amaro, Santo este venerado com muita fé e crença não só pelas gentes desta freguesia mas de toda a Ilha.” in http://www.freguesiasantacruz.com/

Gaula, a freguesia e a sua história

April 16th, 2009

… continuação daqui:

As terras de Gaula: – Quanto ao nome “Gaula” que Lançarote Teixeira quis juntar ao seu próprio nome, existem indicadores que ajudam a compreender que essa opção não teria sido feita por acaso, como não foi por acaso que nessa mesma época em Gaula surjam personalidades cujos nomes se relacionam com heróis dos romances de cavalaria da Idade Média, de modo especial “O Amadiz de Gaula” donde provém o nome Gaula, romance que os detentores desses nomes, Lançarote Teixeira incluido, bem conheciam. O próprio Lançarote, em memória de Ingriote o libertador para fora do Castelo de Gronanesa, de Oriana, “a Sem Par”, a heroina central de “O Amadiz de Gaula”, iria eternizar a memória daquele seu herói no rochedo chamado a Angriota da Fazendinha, a extremidade junto ao mar onde se juntam as extremas Norte e Leste da freguesia de Gaula. Afonso da Mata, contemporâneo, conterrâneo e sesmeiro de Lançarote Teixeira de Gaula, era conhecedor dos romances de cavalaria Idade Média, tanto assim que iria ao romance de Tristão e Isolda buscar o nome Iseu, ou Iseia, com o qual iria chamar uma sua filha. Ele, ou seus filhos, teriam ido ao romance do Amadiz de Gaula buscar o nome para uma sua neta a quem puseram o nome de Grismunda, ou Grismonda e o nome para um neto a quem chamaram Galás, aquele herói da Demanda do Santo Graal a quem, durante a conquista da fortaleza de Monte Ségur, cabaria o previlégio de põr a salvo o Santo Graal. Quanto ao próprio Lançarote Teixeira, seu filho, também chamado Lançarote Teixeira de Gaula, ou o “senhor Lançarote Teixeira, fidalgo, morador em Gaula” onde faleceu em 16/05/1561, teve um neto, chamado Lançarote Teixeira da Fonseca, que casou no Faial, onde foi morador, outro neto chamado Lançarote Teixeira de Góis, que casou em Gaula, com Suzana Gonçalves da Costa, e foram moradores na Lombadinha, e ainda um bisneto chamado Lançarote Teixeira de Velosa (Velosa do Porto Santo) falecido em 1598. Nada tem de extraordinário este acervo de Lançarotes de Gaula mas é, por demais evidente, um bom motivo para que os mais ilustrados, ou os mais eruditos dos gauleses, ou mesmo os mais curiosos pela sua história, possam reflectir e depois se pronunciar, com justa presunção, quanto às extravagantes origens do nome da sua freguesia, baseados num rigoroso e verdadeiro conhecimento da especificidade dos seus primórdios.

OS POVOADORES – As Terras de Gaula começaram a ser desbravadas e povoadas a partir de meados do séc XV por gente oriunda de Reino de Portugal, maioritariamente do Alto Minho, das Beiras, do Alentejo e do Algarve e até alguns de Lisboa e Porto entre os quais se referem os seguintes que ainda têm descendência em Gaula: Lançarote Teixeira de Gaula, casado com Isabel Nunes, filha de Nuno Fernandes Cardoso e de Lianor Dias, no seguimento de seu pai Lançarote Teixeira de Gaula, casado com Beatriz de Góis, desbravaram e povoaram, entre outras, as terras das Lobas, do Lombo e do Salão. Nuno Fernandes Cardoso e irmãos, juntamente com seus familiares, Gomes Vaz e Lopo Fernandes, desbravaram e povoaram as terras da Torre, do Salão de São João, da Fonte do Lopo, e Fazendinha e outras das Terras de Gaula, pertencentes à Lombada da Boaventura da freguesia de Santa Cruz, nomeadamente o Rosário e a Palmeira, o Ribeiro do Françês e as terras em volta do Pico da Amoreira. Nuno Fernandes Cardoso, filho de João Nunes Cardoso, senhor de Besteiros e de Midões, terras da Beira Alta, tendo feito assentamento na Palmeira, Lombada da Boaventura, Terras de Gaula, por testamento de 03/04/1511 fêz morgado da sua terça nas terras de São João de Latrão. Três dos seus seus seis filhos, tendo estudado na Italia e em Coimbra, exerceram altos cargos na Corte do Reino onde foram agraciados com a comenda da Ordem de Cristo. Afonso da Mata, de ascendência galega, escudeiro fidalgo, casado com Isabel de Freitas, dos Freitas das Terras de Bouro, fez assentamento nas terras altas da freguesia. A ele se deve a instituição das primeiras levadas de hiréus da freguesia de Gaula, a Levada do Pico dos Iroses e da Levadinha da Ribeira da Metade e a construção do seu primeiro moinho, situado na cova do Moinho. Francisco Dias de Gouveia, casado com Maria Gonçalves, oriundo da vila de Gouveia da Beira Alta e Fernão Gonçalves da Nóbrega, oriundo das Terras de Anóbrega, ou de a Nóbrega, situadas entre o Alto Minho e a Galiza, foram dos primeiros povoadores que vieram fazer assentamento do Chão da Ribeira do Porto Novo onde foram lavradores e proprietários de vinhas e de canas de açúcar. Gonçalo Pires Gramaxo, filho de Rui Gramaxo e de Inês Pires Escórcio (Drumond) oriundo de terras alentejanas, fidalgo da casa d’el-rei, no último quartel do sec, XVI fêz assentamento na Lombadinha que então pertencia ao Cofre dos Cativos e Ausentes, e é dele que descendem os Ferreiras de Gaula. Duarte Barreto, João Thomás, Diogo Homem de Sousa, Baltazar Pinto, João d’Élvas, são referidos como mercadores. Muitos outros, mercadores, agricultores, ou simples colonos, nomeadamente de título Afonso, Anes, Arrais, Alvares, Buim, Caldeira, Costa, Dias, Gama, Góis, Gonçalves, Pires, Ponte, Salgado, Vares, Váz, Viana, não deixaram descendentes em Gaula nos seus titulos de origem mas noutros tiíulos, cruzados por casamento, que foram surgindo ao longo do séc.XVII, conforme se pode verificar pelos livros paroquiais da época.

 A CAPELANIA DE SANTA MARIA DA LUZ DE GAULA – Conforme AN/TT – Corpo Cronológico, m. 31, doc.1311, a capelania de Santa Maria da Luz de Gaula foi criada, em simultâneo com a nomeação do seu primeiro capelão João de Perall, por carta do rei D. Manuel I, dada em Sintra aos 13 de Setembro de 1509. É considerada de entre as menos antigas da Madeira, comparativamente com as capelanias do Espirito Santo e Santo Antão do Caniço, de Machico e de Santa Cruz, todas elas supostamente criadas cerca de meados do séc, XV, não existindo documentos confirmando o verdadeiro ano da sua criação. Em 13 de Setembro de 1509, na vila de Sintra, perante Dom Diogo Pinheiro “vigário Geral da Ordem de Cavalaria e Mestrado de Nosso Senhor Jesus Cristo” com sede em Tomar, João de Perall prestou juramento “aos Santos Evangelhos por ele corporalmente tocados” e foi confirmado por “capelão da dita igreja de Santa Maria da Luz de Gaula da ilha da Madeira da parte de Machico”. A posse da capelania ser-lhe-ia conferida aos 13 de Janeiro de 1510 em Gaula, termo da dita vila de Machico, na igreja de Nossa Senhora da Luz, por Vasco Afonso, vigário da vila de Machico, Ouvidor e Visitador do acima referido vigário Geral da Ordem de Cristo em toda a capitania de Tristão Váz Teixeira.

 A FUNDAÇÃO DA FREGUESIA DE GAULA – Faltam documentos que informem sobre a data da criação das freguesias mais antigas da ilha da Madeira, ou da sua passagem de capelania a vigairia e por fim da sua passagem de vigairia a freguesia. Isto pressupõe a dedução lógica que teriam adquirido o estatuto de freguesias quando os seus habitantes passaram a serem tratados como fregueses. Assim, teriam sido os fregueses das capelanias que deram o estatuto de freguesias às localidades que tinham a igreja que eles eram obrigados a frequentar e de cujo existência dependia toda a sua actividade e estatuto social. Com isto se pretende dizer que a fundação, ou a criação das antigas freguesias, tem precisamente a data da criação, ou fundação da sua capelania, embora se desconheçam documentos que confirmem essa transformação, se alguma vêz ela, de facto, existiu. Quanto à freguesia de Gaula, se isso não aconteceu assim, deve-se ao facto de Gaula ter sido uma das poucas freguesias da Madeira que teve o invejável previlégio de conhecer e possuir todos os documentos que informam àcerca da sua origem como freguesia autónoma. Assim, e uma vêz que não existem documentos que refiram uma data que marque a passagem da capelania de Gaula para a freguesia de Gaula, não restam dúvidas quanto a considerar- se o dia 9 de Setembro de 1509, data da sua criação como capelania, a data correcta da criação simultânea da freguesia de Gaula. Os documentos disponíveis relacionados com a criação da freguesia de Gaula, são claros quanto a demonstarem que a data da sua fundação corresponde à data da criação da sua capelania. Em seu complemento existem as informações escritas abaixo referidas e disponíveis ao alcançe de quem quer que esteja, de boa fé, interessado no assunto. A carta que os representantes dos gauleses em 11 de Janeiro de 1511 enviaram ao procurador da Ordem de Cristo em Machico diz o seguinte:”Os fregueses de Santa Maria da Luz do logo de Gaula fazemos saber a vossa mercê que João de Perall capelão da dita igreja começou a servir do dia de Natal de mil e quinhentos e nove, o qual serviu com todas as coisas que a sua carta declara…. vo-lo fazemos saber para que vossa mercê lhe mande pagar sua pertença”. Documentos existentes do Corpo Cronológico da Torre do Tombo, transcristos pelo dr.Fernando Jasmins Pereira, informam que João de Perall, referido como vigário de Gaula, de 1512 até 1521 recebia 9.800 reis de vencimento; que em 1925, Martim Afonso, referido como vigário de Gaula, recebia 9.800 reis; que, de 1529 a 1535, António Álvares, vigário de Gaula, recebia 9.800 reis de vencimento. Um registo exarado no Livro de Matrículas do Cabido da Sé ( in A.H.M. vol. X. pág,.169) contém a seguinte informação: “Em quinta – feira, 25 de Abril de 1538, na vila de Santa Cruz, na capela de São Tiago, Igreja do Salvador, Manuel da Mata, filho de Bartolomeu Luis e de Joana de Freitas, sua mulher, moradores em Gaula, termo da vila de Santa Cruz, freguesia de Nossa Senhora da Luz, (foi) promovido ad primam clericalem tonsuram”. Chamo à atenção quanto à inconsistência de considerações feitas no último parág. da pág. 77 que termina na pág, 78, do Elucidário Madeirense, referentes à data da constituição, separação de Gaula da vila de Santa Cruz, primitiva igreja e côngrua do primitivo vigário. A propósito, escreveu um autor que Gaula teria sido elevada à categoria de freguesia em 1558 que, incorrectamente, seria considerado o ano da fundação da freguesia de Gaula até alguns anos a esta parte. Alegva o referido autor que tal facto era devido a um decreto de D. Sebastião que, quando subiu ao trono, foi sugerido pelos seus conselheiros, com a finalidade de asseguar de agradar ao clero, mandar aumentar para 9.800 reis a côngrua dos vigários. Se alguma vêz existiu tal decreto, a verdade é que os vigários de Gaula não precisaram dele. uma vêz que já recebiam 9.800 reis de vencimento desde 1521.Em difinirtivo, quer no Arquivo Regional da Madeira, quer no Arquivo Regional da Torre do Tombo, quer da Arquivo da Biblioteca Nacional, além dos documentos acima referidos, não existem outros documentos que tratem da fundação da freguesia Gaula.

 A FREGUESIA DE GAULA E OUTRAS FREGUESIAS – Atenda-se na seguinte transcrição do Elucidário Madeirense: “O Dr. Alvaro de Azevedo assinala o ano de 1430 para a criação das freguesias de Câmara de Lobos e Calheta e o de 1440 para o Caniço e Riberira Brava, fixando o de 1450 para Machico”. Quanto a Santa Cruz afirma que “como freguesia autónoma, teria sido criada no segundo quartel do séc. XV”, ou seja no período compreendido entre1425 e1450. Diz-se que “assinala” e “afirma”mas, é ligítimo perguntar: baseado em que documentos? Em relação ao Caniço, é grande a dúvida quanto à sua criação como freguesia autónoma em 1440, se tivermos em consideração a carta de D. Manuel que em 27 de Janeiro de 1500 apresenta ora novavamente Gonçalo Afonso para capelão das capelanias do Espírtito Santo e de Santo Antão do Caniço, cuja posse lhe foi conferida por Vasco Afonso, vigário de Machico, por ordem de D.Diogo Pinheiro, Vigário Geral da Ordem e Cavalaria de Cristo com sede em Tomar, por sua carta de 1 de Fevereiro desse mesmo que termina assim:”E porem has festas pimcipais os fyigreses das ditas igrejas seram abrigados de hir asi uuns comos outros as igrejas donde antes eram freygueses”. De notar que “ora novamente ” significa a primeira vez, enquanto que o ultimo paragarfo dá a entender que, antes desta carta, havia igrejas que os fregueses das duas capelanias já antes frequentavam. Como se depreende do transcrito no primeiro parágrafo, todas as datas adiantadas sem documentos são duvidosas, porque arbitrárias.

 A TERRA E A GENTE

 O MAR – O PORTO NOVO – Durante séculos, o caminho mais prático e mais rápido para chegar a Gaula foi o mar, atravéz do calhau da Aldonça e do calhau do Porto Novo que foram também os dois portos de pesca da freguesia. Até finais da segunda Grande Guerra o Porto Novo seria considerado a porta de comunicação de Gaula com a cidade e com as demais localidades dos Nortes e das Costas de Baixo. Daí sairam os falueiros para o Porto Santo, carregados de lenha e de géneros alimentícios, trazendo, na volta, cereais e gado vacum. Daí zarparam as fragatas para a Deserta Grande e Bugiu donde regressavam caregadas de lapas, bodião seco e molhos de luzerna para exportação. Devido à sua situação estratégica, seria ocupado militarmente durante as guerras napoleónicas e cenário de batalha feróz em 1823 durante as Guerras Liberais. No decorrer das duas Grande Guerras seria vedado com arrame farpado, entrincheirado, fortificado e artilhado.

A MEIA – SERA GAULEZA – Seria, desde o ínicio do povoamento até ao último quartel do séc. xx , a grande propriedade comum dos Gaulezes. Lá nasciam as Ribeiras da Serra d’água, dos Vinháticos e das Uveiras e as trinta e duas sacadinhas donde vinha a água da Levada do Pico dos Iroses que, descendo do Cabeço dos Oregos até ao Chão das Águas Mansas, dando pelo Leste uma volta ao Pico dos Iroses, depois de atravessar a freguesia de poente ao nascente, se ia precipar no água d’alto do Calhau do Porto Novo. Aí “as gentes de cima”, os chamados”cabreiros” pela gente da Beira-Mar, criaram durante séculos e em paz, o seu gado alfeirio, vacas, cabras, ovelhas e porcos. Era lá que os gaulezes iam buscar a lenha para manter acessas as suas lareiras ao longo do ano e fazer o “carvão de urza” que iam vender em sacas pelas ruas da cidade. Todos os dias a Meia Serra Gauleza era uma grande campina cheia de gente que se movimentava, cruzando-se em todas as direcções, especialmente no primeiro de Agosto quando os fiscais da Câmara se deslocavam aí, com a finalidade de demarcarem os lotes de feiteira verde que cabia a cada agricultor.

 SITIOS E LUGARES – São sitios de Gaula os seguintes: Achada da Rocha, Achada de Baixo, Achada de Cima, Achadinha do Pico, Aldonça, Beatas, Castelejo, Contenda, Faia, Farrobo de Baixo, Farrobo de Cima, Fazenda, Fazendinha, Fonte do Lopo, Fonte do Pico, Fonte dos Vinháticos, Furtados, Jogo do Malhão, Lobas, Lombadinha, Lombo, Ribeiro da Faia, Torre, Porto Novo, Porto Novo de Cima, Lages, Levadas, São João, Salão, Pico Norte, Pico Sul, Povo, Terra da Velha, Torre. Além dos sitios referidos existem as seguintes localidades, umas habitadas, outras não: Amoreirinha, Angriota, Assomada, Concha, Cabeço da Achadinha, as Marianas Cabeço da Fazendinha, Cabeço da Nana, Cabeço da Pedra Redonda, Cabeço de Nossa Senhora, Cabeço do Mariana, Cabeço dos Oregos, Cabicinho do Pico, Calhau das Fontes, Calhau das Mulheres, Calhau do Castelejo, Calhau da Aldonça, Caramanchão, Cardal, Cerrado da Fazenda, Cerrado do Pomarinho, Cerrado Rôxo, Cova da Fazenda, Cova do Lombo, Cova do Moinho, Cova dos Ratos, Cumarinho, Ervagens, Fonte Calçada, Fonte dos Vinháticos, Fontes de São João, Furado, Furna do Diabo, Galinheiro, Ladeira da Morte, Levadinha do Pico, Olheiro da Fonte do Lopo, Os castanheiros, Passo de Pau, Passo da vaca, Paridinhas, Pasto, Pedregal, Pico da Amoreira, Pico da Craua (coroa), Pico dos Irós, Palheiros, Pinheiras, Pomarinho, Ponta da Polé, Portada do Porto Novo, Quintinha, Quiosque, Rabete, Rocha Alta, Rocha do Gato, Rocha do Menino, Rocha Grande, Tracuna,Verdelho.

 LIMITES DA FREGUESIA – A partir do último quartel do séc XIX, devido à passagem para a freguesia da Camacha duma grande parte das terras altas de Gaula, nomeadamente o Ribeiro do Serrão, as Caiadas, a Junça, a Ribeira da Metade, a Eira de Fora, a Eira de Dentro, as Águas Mensas e toda a Meia Serra Gaulesa, Gaula passou a ter os seguintes limites: pelo Norte, o curso médio da Levada de Gomes Váz e a Levada da Roda, passando pelo Pico da Amoreira, até à rocha do mar donde se precipita na Angriota; pelo Sul, a Ribeira do Porto Novo; pelo Leste o mar e pelo Oeste o degradado Caminho de Concelho que, saindo do Buqueirão passa pela direita da Eira de Fora e da Eira de Dentro, até à ribeira do Porto Novo. Ao longo deste caminho havia três marcos dos quais, presentemente existe apenas um, situado na Eira de Fora, no lado direito do caminho, no sentido Norte – Sul.

 OS ADELOS – Gaula foi um freguesia em que muitos dos seus primeiros povoadores foram mercadores e agricultores que deram continuidade a outros, abastados e influentes nos séc. XVI, XVII e XVIII, referenciados nos registos paroquiais do séc.XIX como adelos e agricultores. Ao longo do séc.XX, em grande quantidade, de fardo às costa, percorreram um sem número de veredas e de caminhos do concelho de todas as freguesias da Madeira e a ilha do Porto Santo, passando dias e dias fora de casa, por vezes semanas, comendo e dormindo mal, ao sol e à chuva, tentando vender roupas e tecidos, fazendo-se transportar para os lugares mais distantes nos barcos de carreira, ou de pesca. Eram maioritariamente residentes no centro da freguesia onde ainda hoje se pode observar as suas residências que então contrastavam em tamanho, qualidade e conforto com as casas mais humildes dos seus conterrâneos simples agricultores.

A LENDA DAS AMORAS – O episódio que deu origem àquilo que é vulgarmente conhecido pela Lenda das Amoras, deve-se a um acontecimento na vida real, protagonizado por Manuel Vieira da Mora ou da Amora, um lavrador muito agarrado às coisas que lhe pertenciam que morava no Cabeço das Levadas da fregueisa de Gaula onde havia casado em 21/05/1674. Numa fazenda da chamada Rocha da Lapa, tinha uma amoreira cujos frutos eram muito cubiçados pelos melros-pretos. Na tentativa de os escorraçar fazia grande espalhafato, recorrendo a apupos, palmas, pedras e varas. Certa tarde, um melro, já acostumado à barulheira do homem, num voo rasante, passou diante dele com uma amora no bico. De vara em riste, perseguindo o melro de parede em parede, o homem bem tentou abatê-lo para lhe ficar com a amora, mas o madraço do melro escapava-se-lhe a cada investida. Devido ao grande alarido, a gente das redondezas acorreu a ver o que acontecia, empoleirando-se pelas paredes. A certa altura o melro meteu-se num buraco duma parede e o homem acorreu logo a esfuguitá-lo com a vara, retirando pedras da parede,preparando-se para lhe dar uma varancada assim que saisse de lá para fora. Depois de ter deglutido a amora, o melro, escapulindo-se do buraco num fisgote, a cantarolar, como que a fazer chacota do agricultor, esvoaçou num rápido zigue-zague em direcção aos choupos do ribeiro da Lapa onde se pôs a cantar. A gente que presenciou um tal espectáculo encarregou-se da sua divulgação pela freguesia onde o protogonista ficaria sendo chamado o Manuel Vieira damora, ou da Mora, conforme vem referido nos registos paroquiais da freguesia de Gaula. Não levou muito tempo para que este episódio, um tanto caricato, fosse divulgado por todas as freguesias da Madeira, graças aos adelos habituados a contar histórias para engrazar os fregueses. É por isso que Gaula, tanto no Norte, como do Sul da ilha, é conhecida pela freguesia das amoras.

 OS ADELOS E A PARRECA -.Os adelos exerceram grande influência sobre a sociedade do seu tempo, como se pode verificar pelo papel que desempenharam na instigação e na participação activa da revolta contra a implantação das Juntas de Paróquia. As Juntas de Paróquias foram instituidas no último quatel do séc..XIX. A oposição à sua instalação deu origem a uma revolta popular chamada a “Parreca”, iniciada em 23 de Outubro de 1877, quando os gauleses impediram que os elementos escolhidos para constituirem a Junta de Paróquia de Gaula tomassem posse, tendo-os escorraçado pela porta da Sacristia. No dia 26 desse mês um grupo de cerca de 400 pessoas de Gaula e da Camacha desceu à vila a exigir da administração do Concelho o fim das Juntas de Paróquia. No dia 20 de Novembro, um ajuntamento de gente de Gaula, Caniço e Camacha deu origem a grandes tumultos junto à igreja do Caniço. No dia 21, uma multidão que excedia as 2000 pessoas, gritando impropérios contra o regedor e contra o pároco, com grande alarido, ameaças de morte, com bombas de dinamite, á pedrada, munidos de paus, atacaram a igreja e as residências do regedor e do pároco. No dia 21 invadiram a igreja e a sacristia, despedaçaram as janelas e as portas da casa do pároco, tentando cercá-lo e afogá-lo, ao qual, tendo-se escapado, acabaram por assaltar e roubar a residência. À chagada dos soldados o povo amotinado matou um soldado e a tropa, em resposta, matou vários populares. O barão de Nora, então administrador do concelho, em carta enviada ao governador da Madeira, acusou os gauleses escrevendo que”foi a freguesia de Gaula a primeira desta comarca que se opôs a que a Junta de Paróquia se instalasse naquela freguesia e a causa desta oposição foi a propaganda feita de que as Juntas de Paróquia vão lançar novos impostos”. Nessa mesma carta escreveu ainda: “Foi pelo emprego destes meios ignóbeis que foi na freguesia de Gaula, onde um grande número de adelos que estão em completo e quase quotidiano convívio com o Funchal, donde tais ideias partiram que a primeira aparição (de manifestantes) se declarou neste concelho…”

 A EMIGRAÇÃO – No seguimento das primeiras levas de emigrantes para as Américas e Antilhas, iniciadas a partir de meados do século XIX, seria a partir de meados da década de quarenta deste século, ja nos finais da 2ª Grande Guerra que se iniciaria a grande diáspora da população gaulesa para o Curação e para a Venezuela, imediatamente incrementada com destino ao Brasil e à Africa do Sul. Por essa razão, os gauleses se haveriam de dispersar por diversos paises da emigração, pelo que pode dizer-se que não haverá uma única família gaulesa que não tenha parentes pelo mundo fora, nomeadamente nos Estados Unidos e no Away, nas ilhas da Tindade e Tobago, Barbuda, Aruba, Curaçau, Antígua e SãoVicente, na Venezuela, Demerara, Goiana Farncesa, Brasil, Argentina, e no continente africano, em países como o Zimbawbué, África do Sul, Namíbia, Angola e Moçambique. A partir da segunda década deste século teve lugar a ampliação da igreja matriz, a construção da torre com os quarto relógios e dois novos sinos, a construção e pavimentação do adro. O aumento de novas terras aravéis, muitas delas cerrados comprados aos senhorios com dinheiro ganho no estrangeiro, obrigaram à grande tarefa de procurar mais águas de rega na Meia Serra Gaulesa, de que resultou a construção de 32 sacadinas, levadinhas secundárias vindas de outros tantos tunéis, que aumentaram o caudal da Levada do Pico dos Iroses de mil e trezentas penas para duas mil. Durante a década de trinta os hiréus gauleses tiveram que suportar longa demanda com os hiréus da Levada da Roda da qual sairam devidamente justiciados, graças ao empenho do seu presidente Manuel Vieira de Freitas. Por meados do século, o canal da Levada.ao longo dos seus cerca de oito quilómetros, tinha sido melhorado e totalmente reconstruido com dormentes e caixas divisórias desde as Águas Mansas até à Portada do Porto Novo. Em 1922 era inaugurado o segundo tanque para a receber as águas noite da Levada do Pico dos Iroses e da Levadinha da Ribeira da Metade, passando Gaula a ser a primeira freguesia em toda a ilha a deixar de regar as suas fazendas durante a noite, o melhor presente que se poderia oferecer aos esforçados e sacrificados agricultores. Pelos finias de 1947, o útimo falueiro do Porto Novo, varado à ilharga do antigo botequim do Dominguinhos, em frente do cabrestante, exibindo de riba do camalhão o seu porte altaneiro em representação simbólica dos tradicionais barcos de carga do Porto Novo, com seu nome “Assis” gravado num lado e noutro do bojo da proa voltada para o mar, aí acabou os seus dias, sem que alguém lhe desse a devida importância. Devido à emigração, acabaram-se as chamuscas, as semeaduras de pinos e de bagina de giesta que antes era costume serem feitas nos baldios da serra situados entre o Pico dos Iroses e o Cabeço dos Oregos. Os cereais, mormente o trigo, a cevada e o centeio, deixaram de ser uma importante cultura tradicional e, em consequência disso, as “máquinas” de debulhar trigo e as respectivas”ventuinhas”, por desnecessárias, pouco a pouco foram sendo recolhidas nas antigas lojas onde, não imunes à ferrugem, se vão definhando pouco a pouco. Por falta de braços, acabaram-se as plantações de cana de açúcar e de cebolas para “embarque” e as corças dos boieiros que as acarretavam; os moinhos deixaram de moer e as fazendas, então cuidadas e verdes, passaram a campos maninhos, cheios de silvados e ervas infestantes. Em lugar dos pinheiros para arranjo da casa e onde os pássaros faziam os ninhos, sobraram eucaliptos e acácias que não servem nem aos pardais que, inseguros nas ramagens, debandaram para outras bandas.

 AS GAULESAS – Quem não se enfeita, a si se enjeita. Este adágio popular, muito conhecido em Gaula, fala, por si só, das mulheres gauleses: distintas, esbeltas, elegantes, altas e de feições afidalgadas.Não há grande destinção entre as gaulesas de Cima e as gaulesas da Beira – Mar. Talvez as de cima sejam mais robustas, mais avermelhadas, mais sujeitas ao trabalho, mais intrépidas, enquantro que as da Beira-Mar serão mais caseiras, mais requintadaas no vestir, menos trabalhadeiras mas mais bordadeiras, talvêz um pouco mais femininas. Todas elas são perfeitas donas de casa e esmeradas educadoras dos filhos. Bastante se tem dito sobre as mulheres gaulesas por parte daqueles que percebem da beleza feminina. Tem-se falado e escrito sobre os seus cabelos loiros, sobre os seus olhos azuis, sobre a sua cor rosada, sobre o elegância do seu porte e a leveza do seu andar, sobre as suas formas esbeltas, em suma da perfeição e da fineza dos traços das suas feições sempre belas, mesmo quando a idade já não perdoa. “Até parece uma gauleza”, costuma dizer-se nas freguesias lemítofes quando vêem uma rapariga bem posta, vestida de cores garridas.”As gaulesas são formosas e a sua fama repercute-se pelos quatro cantos da ilha: bonitas as gaulesas, dançam também com muita graciosidade…” É esta a opinião do conhecido expert em folclore e coreografia madeirense, Carlos M. Santos, expressa no seu livro “Tocares e Cantares da Ilha”. David Ferreira de Gouveia, genealogista de ascendência gauleza, residente em S. Paulo, Brasil, a propósito de Gaula e das suas mulheres escreceu o seguinte: ” Retrato de … de épocas remansosas…Tudo desaparecerá? A rixa com as gentes da Lombada de Santa Cruz e da Camacha. Ciumeira, emulação pela beleza feminina… deixando fama de bonitonas, esbeltas, airosas, bizarraas… as da Achada de Gaula, maioritariamente, eram louras, garbosas, porte elegante…”Para complemento do depoimento deste ilustre gaulêz, as gaulezas mais bonitas, aquelas cuja “fama repercute -se pelos quatro cantos da ilha”, são as da Achada e das Levadas, oriundas de duas famílias residentes nestes duas localidades. Qunato à graciosidade das mulheres gaulezas, relacionada com as mulheres das outras freguesias do concelho de Santa Cruz, o P.re Alfredo Vieira de Freitas atribui-a ao orago das respectivas freguesias com quem as suas mães se apegam na hora de darem à luz. Enquanto as camacheiras se apegam a São Lourenço, assando numa grelha, as de Santa Cruz agarram-se ao Salvador de olhos arregalados, pregado numa cruz, as do Caniço fazem promessas ao velho e feio Santo Antão, as gaulezas pedem ajuda à Senhora da Luz, uma senhora jovem e muito linda, com um menino não menos gracioso no seu colo. É por isso que as gaulesas, na véspera da festa anual em sua honra, vestiam a sua padroeira com os seus vestidos de seriguilha e o seu manto de espiguilha e, ao olhar para ela com o seu menino ao colo, na procissão do dia da sua festa, choravam de comoção lhe agradecendo a ajuda durante o parto dos filhas e filhos que, como se fossem anjos verdadeiros, seguiam agora à sua frente, ornada de cordões de ouro, balançando no seu andor ornamentado com as mais lindas flores, produzidas e colhidas nos seus jardins.

 A BATALHA DAS VOLTAS DO POTO NOVO – Em 22 de Agosto de 1828, durante a Guerra Civil entre D. Pedro (Liberais) e D.Miguel (absolutistas), a Madeira era então governada pelo General José Lúcio Travassos Valdêz, uma esquadra miguelista de nove navios depois de ter bombardeado e calado calar fortes de S. João Baptista, de S.Roque e de N.ª S.ra do Amparo que defendiam a baía de Machico, desembarcou aí 1425 soldados armados que de imediato se puseram em marcha pela ladeira da Queimada em direccão ao Funchal., tendo acantonado nos campos de Santa Catrina e os oficiais se aboletado nas melhores casas da vila de Santa Cruz. A população de Gaula, ao aviso de “a guerra já vem a Machico”, fugiu com o seu gado p’rá serra, enquanto os soldados madeirenses, cerca de mil homens, fugindo ao avanço dos continentais foram acantonar nas Voltas do Porto Novo, abaixo do Forte de São Miguel. Na manhã do dia 28 de Agosto cerca das oito horas, a tropa continental à vista do Forte e do aparato militar em sua volta fêz alto e começou o tiroteio para um lado e outro da Ribeira do Porto Novo. Levavam os madeiresse a melhor quando um tiro do navio almirante, a nau D. João VI, que passava em frente do Forte, lhe antigiu a casa da guarda e o paiol da pólovra, ferindo muitos militares, gravemente o camandante João Shwalback e matando dois artilheiros gauleses. O sargento de artilharia, Pedro Jorge, morador na Portada do Porto Novo, ficou totalmente destruido, dele se encontrando apenas uma bota que foi cair no chão do Porto Novo, Sargento Ajudante de artilharia, Francisco António Jorge Bettencourt, morador na Fonte dos Vinhátcos, foi sepultado na igreja de Gaula no dia 24 de Agosto de 1828. O sargento Pedro Jorge da Portada é o ascendente de todos os Jorges da freguesia de Gaula, maioritàriamente moradores na Portada do Porto Novo e nas Lages.

AS “TRUNCHEIRAS” DO PORTO NOVO – Na madrugada de um dia de 1918, Josefina de Nobrega, rapariga de dezoito anos, moradora nas Lages de Cima, quando se dirigia para o calhau do Porto Novo, em frente do Forte de S. Marcos, afim de apanhar lapas e caramujos, estacou ao presenciar duas personagens vestidas de forma esquesita que, ao verem-na, logo se atiraram à água. Seguindo-os com o olhar, repaou que ao chegarem perto daquilo que lhe pareceu ser um mastro curto, desapareceram, assim como essa espécie de mastro. Assuatada e intrigada, correu para casa a contar o que tinha visto. Os pescadores e os barquieros encarrgaram-se de espalhar o sucedido que cedo chegou à cidade aos ouvidos das autoridades. A Josefina foi chamada e interrogada pelos militares que, perante o seu depoimento, ficaram convencidos da verdade dos rumores que corriam afiançando que pescadores teriam visto submarinos por detrás das Desertas. Por isso mandram entrincheirar o chão do Porto Novo, defendê- lo com uma companhia de soldados e, atravéz dum acesso interior, construir na pestana da rocha da margem direita da ribeira, um posto de observação dotado duma boca de fogo e cercar de arame farpado as praias, ou colocar portões de ferro em todos os acessos da costa sul.

AS LEVADAS DE HIRÉUS

A LEVADA DO PICO DOS IRÓS – A primeira levada de hiréus a regar na freguesia de Gaula e a de maior caudal, instituida antes da fundação da freguesia, por Afonso da Mata, sesmeiro das terras de Lançarote Teixiera, situadas na parte alta altas das Terras de Gaula. Começa na Meia Serra Gauleza, na chamada Madre da Levada, constituida pelas águas da Ribeira da Serra d’água, ou das Sacadinhas, da Levada dos Vinháticos e do Ribeiro das Uveiras. Por sua vêz, a Levada da serra d’água, é chamada das Sacadinhas por nela virem desaguar 32 pequenas levadas calçadas com pedra partida, chamadas sacadinhas, que trazem as águas doutras tantas galerias escavadas na Meia Serra Gaulesa, nomeadamente no Pico da Pedreira, no Pico dos Ladrões e nos Esterreinos. A Levada do Pico dos Irós, dos Iroses, ou dos Eiroses, deve o seu nome ao facto de quando as suas águas chegaram ao chão existente por detrás do grande cabeço hoje chamado Pico dos Irós, não ter sido tarefa fácil fazê-la descer pela direita para o lado desse cabeço voltado ao mar, em frente do qual se estendiam as terras de Gaula. Nesse chão, as águas da levada, vindas da serra, espalharam-se e formaram um grande charco, onde proliferaram iroses, por isso, ao pico causador da obstrução das águas chamaram- lhe Pico dos Iroses, à Levada, a Levada do Pico dos Iroses, à povoação sitiuado no seu sopé, a Pico dos Iroses e ao moinho que Afonso da Mata aí construiu, o moinho do Pico dos Iroses, ou de Pedro Enes, o filho de Afonso da Mata, que foi referido como sendo seu proprietário e seu moleiro. Desde a Madre da Levada até ao água d’alto da Lages, donde se precipita no Cabo do Calhau, percorre cerca de 18 quilómetros e, pelo terreno que rega na freguesia, através duma teia de ramais e de pequenas levadas, percorre uuma extensão de cerca de 750.000 metros. Cerca de 1885, a Levada do Pico dos Iroses foi inscrita na extinta Conservatória Oriental do Funchal, sob o n.º 411, a fls 26/v do Lº B-4. Antes estava inscrita a fls.8/v do L.º B-2 da mesma conservatória – Indice Real da Freguesia de Gaula, L.º120, fls17/v.. Os estatutos da Levada do Pico dos Iroses, em vigor a partir de 09/02/1908, foram alterados a primeira vêz em 1 de Junho de 1916 e a terceira alteração em 15/4/1945 com a finalidade de nela integrar a Levadinha da Ribeira da Metade, passando desde então a chamar-se Levada do Pico dos Iroses e Levadinha da Ribeira da Metade.

 A “QUEST” DA LEVADA – Originada em 1927, ficou a dever-se a um desentendimento entre os hiréus da Levada da Roda que rega na Lombada da Boaventura e em parte de Gaula, presidia pelo Dr.Joaquim Vasconcelos de Gouveia e a Levada do Pico dos Iroses, presidida por Manuel Vieira de Freitas. Entre as duas levadas havia um acordo quanto à posse conjunta das águas da Levada da Serra d’água que, passados trinta e dois anos, teria sido denunciado unilateralmente pela Levada da Roda cujos hiréus amotinados, tendo vindo à Meia Serra Gaulesa, cortaram o mainel da Levada dos Iroses e desviaram parte da sua água para a Ribeira dos Vinháticos que, a partir da Primavera, dava origem à Levada da Roda. Os gauleses, alertados por toques de búzio, acorreram em defesa dos seus direitos e no recontro que teria lugar sobre o archete do ribeiro das Oveiras conseguiram frear os impetos dos hiréus da Levada da Roda. Não tendo o diferendo ficado sanado. a “questã da Levada” deu origem a uma demanda representada por Manuel Vieira de Freitas que transitou do Tribunal Judicial da Comarca de Santa Cruz para o Supremo Tribunal da Justiça que, dando razão à Levada do Pico dos Iroses, condenou a Levada da Roda a pagar todas as custas do processo, corria o ano de 1934.

 EXPROPRIAÇÃO DA LEVADA DO PICO DOS IROSES – Em 28/02/1971 teve lugar a última Assembleia Geral da Levada do Pico dos Iroses e Levadinha da Ribeira da Metade realizada da sua sede ao sítio das Levadas sob a presidência do Dr. Manuel Rodrigues de Gouveia, na qual ficou exarado em acta que os seus heréus teriam votado por unanimidade aceitar a deliberação da Junta Geral que em 13/02/1971 tinha incorporado a Levada do Pico dos Iroses nos Aproveitamentos Hidro-Agrícolas da Madeira. Este acto consentido tacitamente pelos próprios proprietários da água da Levada do Pico dos Iroses e da Levadinha da Levada da Medade, justificado por um certo receio incoberto, acabaria por espoliar os gauleses do direito à posse duma herança centenária, produto de muito trabalho, muitas somas de dinheiro e muito empenho de gerações.

 A LEVADINHA DA RIBEIRA DA METADE – Levada de pequeno caudal, constituida pelas escorralhas e nascentes do Ribeiro da Junça, do Covão, das Caiadas, da Eirinha, da Relvinha e da Eira de Fora, entre outras. Foi instituida entre 1512 e1525 pelos genros de Afonso da Mata, filhos de João Rodrigues Caiado de Extremóz, que a chamaram “da metade” pelo facto de ter dividido em duas partes, uma para cada uma das suas mulheres, as terras que Afonso da Mata, seu sogro, possuia naquela localidade e lhas tinha doado para seu dote, por seu testamento feito em 1512. A partir de séc. XVII até finais do séc. XIX, foi chamada Levadinha do Pico, como hoje é conhecida. Tem um caudal máximo de cerca de 230 penas no Verão, um braço de água de rega aproximadamente. Vem descrita na Conservatória do Registo Predial de Santa Cruz sob o n.º 7.857 a fls 27/v do Livro B-4. Também se encontra descrita na extinta Conservatória da Comarca Oriental do Funchal sob o n.º 411 do L.º 41-B-5, a fls 8/v. Teve os seus primeiros estatutos lavrados em escritura em 27 de Março de 1908 e, pelos estatutos da Levada do Pico dos Eirós de 15 de Abril de 1945, passou a integrar aquela levada que, desde então, passou a ser chamada Levada do Pico dos Eiros e Levadinha da Ribeira da Metade.

AUTO DE LOUVOR AOS HIRÉUS DA LEVADA DO PICO DOS IROSES – Sabedor atempadamente do que estava para acontecer à Levada do Pico dos Iroses, o presidente da Assembleia Geral, dr. Manuel Rodrigues de Gouveia, na reunião ordinária de 22 de Fevereiro de 1867, quatro anos antes da apropriação da Levada do Pico dos Iroses pela Junta Geral, apresentou aos hiréus presentes uma proposta de voto de louvor que a Assembiea aprovou e deliberou lançar na Acta e que era do teor seguinte: “Por proposta do Senhor Presidente da Assembleia Geral foi deliberado lançar na Acta da presente reunião um voto de louvor a todos os hiréus e a todas as direcções que, desde a fundação desta Levada, tanto se sacrificaram e tanto trabalharam para que o povo da freguesia de Gaula pudesse dispôr da água para irrigação dos seus terrenos sem o que o valor dos mesmos terrenos seria insignificante. Este voto de louvor é uma prova de reconhecimento, ou de gratidão, por parte dos actuais habitantes da freguedsia de Gaula a todos os seus antepassados e especialmente àqueles que, por qualquer forma, mais se dedicaram à criação e progresso contínuo da Levada do Pico dos Eirós. Prova essa que representa numa altura em que se prevê como certa a desaparição da mesma Levada para ser entregue à Junta Geral do Destrito, por imperativo da Lei.”

 A LEVADINHA da FAZENDINHA – Assim chamada por ir regar a Fazendinha, ou “o Quinhão dos Doutores”, o Dr. Pedro Nunes Cardoso, ou o Comendador Morgado de São João e o Dr. Diogo Nunes Cardoso, ou o Desembargador Dr. Diogo Nunes de Gaula, filhos de Nuno Fernandes Cardoso, o instituidor do morgado de São João de Latrão no tempo em que serviam na Corte. Instituida cerca dos últimos anos do último quartel do séc XV, constituida por escorralhas da ribeira de Gomes Vaz e do Olheiro da Fonte do Lopo, vai regar os sitios de São João e da Fazendinha. Está descrita na Conservatória da Registo Predial de Santa Cruz sob o n.º 73 do Livro B-1, fls 39/v e sob o n.º 16.754, fls 141 do Livro B-44 da Consevatório do Registo Predial do Funchal. É uma levada que debita uma média de cerca de 150 litros de água por minuto, entancada em poços cavados na “rocha mole”. Serve cerca de quarenta hiréus num giro de 15 dias na Fazendinha e noutro giro de outros 15 dias, em São João, onde vai regar as terrras que pertenciam do antigo morgado de S.Joaõ de Latrão.

 A LEVADINHA da TRACUNA. Uma pequena lavada de água de entancar constituida pelas águas da Fonte da Tracuna, da Fonte Calçada, da Fonte Fonte do Manézinho, da Fonte do Fole e por escorralhas da Ribeira dos Caboços, entancadas em três poços, um deles tem gravada a data de 1700, situdados de um lado e outro do Ribeiro dos Caboços. Dos três ramais em que se subdivide, o da esquerda vai regar na parte baixa do Salão, em São João e no Castelejo, o que sai pela direita vai regar nos Furtados e numa parte da Lombadinha, outro que também sai pela direita vai regar na Aldonça. Tem 23 hiréus e rega com um giro de 17 dias com um caudal de cerca de cento e cinquenta penas. Juntamente com o prédio rústico onde nasce, está registada sob o n.º 6.541, fls 22 do Livro B-6 da Conservatótria do Registo Predial de Santa Cruz. António Baptista de Gouveia do Castelejo, foi o último presidente da sua Comissão Administrativa.

A LEVADA DA RODA – Chamada Levadinha de João Rodrigues Teixeira “o gordo” primo de Tristão Vaz Teixiera, sesmeiro da Lombada da Boaventura e por ele instituida no ultino quartel do séc. XV, contemporânea da Levada dos Pico dos Iroses. A primeira referência escrita é-lhe feita em 12 /1505, data do testamento de Diogo Vaz , filho de Gomes Vaz, no qual se lê que tinha uma noite de água da Levada de João Rofrigues o Gordo. Nasce na Meia Serra Gaulesa, a seguir à madre da Levada da Serra d’água da qual recebe escorralhas até à confluência com a Ribeira ds Vinháticos da qual também recebe escorralhas. Descendo pelo leito pedregoso da Ribeira da Boaventura, vai aumentando o seu caudal com a água das dezenas de fontes nativas que se seguem até depois da ponte de João Ferino donde, como Levada da Roda propriamente dita, desce a Lombada da Boaventua até ao sítio Levada da Roda onde recebe a Levadina da Fonte dos Almocreves, começando então a regar como levada de hiréus. No tornadoiro situado por detrás do Pico da Amoreira sai para Gaula onde, durante um giro de quinze dias, vai regar nos sitios da Fonte do Lopo, Fazendinha, Torre, São João, Salão e Castelejo. É uma levada de um fraco caudal no Verão de cerca de 250 penas e um caudal máximo de 1440 penas, no inicio do Giro. Até ao século XVII pôs a trabalhar o moinho do Salão, na freguesia de Guala, pertencente aos Teixeiras de Góis e que em 29/5/1727 pertencia a João Nunes de Vasconcelos que nela tinha um moinho, situado na sua fazenda do Salão. A Levada da Roda está descrita na extinta Conservatória da Comarca Oriental do Funchal sob o n.º 72 do Livro B -1 e na Conservatória do Registo Predial da Comarca de Santa Cruz sob o n.º 524 do Livro B -5, fls, 42/v. Os seus estatutos foram aprovados em 17/03/1908.

ÁGUA POTAVEL E LUZ ELÉCTRICA – Devido ao empenho do P.e Alfredo Vieira de Freiras, a rede de água potável e três dezenas de fontanários construidos ao longo dos caminhos de concelho, abastecida com cerca de 300 penas de água proveniente da galeria da Eirinha e da Relvinha, situada na Eira de Fora, que corria para a Levadinha da Ribeira da Metade, foi inaugurada em 08/07/1953, pelo ministro do Interior Eng. Joaquim Trigo de Negreiros, sendo presidente da Junta Geral o comandante João Inocêncio Camacho de Freitas, passando Gaula a ser a primeira freguesia rural madeirense a usufruir desse inestimável benefício que a breve trecho chegaria aos domicílios. Nesta mesma ocasião seria inaugurada a estrada regional que atravessa a freguesia de Gaula desde o cruzamenro de São João até as Àguas Mansas, começada a construir em 1935 e que nessa altura chagava até ao Pomar do Pico onde, junto ao quedra-pressão da rede de água potável, teria lugar a cerimónia da inauguração dos dois empreendimentos. A segunda fase da construção da rede de água potável e dos últimos fontanários terminou em 1960 com o acabamento do fantanário do cedro no sítio das Beatas. Em 1975, devido ao empenho de Lourenço de Gouveia e Freitas, então vereador na Comissão Administrativa da Câmara de Santa Cruz, a rede potável seria reforçada com mais 300 penas de água proveniente das galerias do Ribeiro do Pico, pertencentes à antiga Levadinha da Ribeira da Metade, reconstruidas e adaptadas para o abastecimento público.

PATRIMONIO RELIGIOSO

 A IGREJA MATRIZ DE N.ª S.ra DA LUZ – A primitiva igreja de Santa Maria da Luz, conhecida a partir de 13 de Setembro de 1509, foi sendo sujeita a obras de manutenção e de ampliação até à primeira década do séc XVIII. Seria reconstruida e ampliada de 1714 a 1748, durante o reinado de D.João V que lhe ofereceu “o sino grande” de 177 quilos. Ampliada e modificada pelo vigário João Jorge Bettencourt que construiu a torre sineira e nela colocou, além do “sino grande”, os dois sinos laterais, o dos quartos de hora e o das horas, bem como o relógio de pesos com corda para oito dias, oferta de Arsénio de Mendonça, perdurou até ao ano de 1964. O mesmo vigário mandou amurar o adro, calcetá-lo com pedra de calhau escolhida e embelezá-lo com largas passadeiras de pedra calcária branca, avivadas com losangos e círculos subdivididos, tornado-o assim o adro mais espectacular de toda a ilha que pelos anos quarenta e cinquenta não só pertencia a toda a gente, sem qualquer descriminação, como era o parque de recreio dos rapazes e das raparigas das três escolas das circunvizinhanças da igreja, onde havia sessões de cinema e de ilusionismo, o lugar onde os habitantes dos diferentes sitios montavam as baracas para receberem as oferendas das romagens para serem arrematadas no dia da festa. Essa igreja que perdurou até o ano de 1964, era um edíficio orientado no sentido Norte-Sul, sólido e robusto, alto e espaçoso, bastante arejado, com cantarias de pedra rija na porta de entrada, na arcada para a capela-mor, na sacristia e nas capelas laterais. Um incêndio, ocorrido na madrugada de 20 de Setembro de 1964, destruiu-a quase totalmente. Em seu lugar, foi construido o actual templo cujos custos foram suportados, na sua quase totalidade, pela bondade e generosidade dos gauleses, tanto residentes, como ausentes. Da igreja antiga tudo levou descaminho, nada resta, nem a estátua de mámore da Senhora da Luz que encimava o coruchéu da torre, nem as cantarias, nem os sinos, nem o maquinismo em cobre dos três relógios. Até as próprias pedras da calçada do adro levaram descaminho.

 A FESTA DA PADROEIRA – A festa em honra da Senhora da Luz, a padroeira da freguesia de Gaula desde a sua fundação, é celebrada anualmente no domingo da semana que contém o dia 8 de Setembo, o dia do nascimento da estrela de primeira grandeza chamada Spica, a espiga de trigo segura na mão direita da Virgem, simbolo da procriação da espécie humana, representada desde a antiguidade numa constelação do céu austral. Os homens mais importantes e mais abastados da freguesia foram, em tempos idos, os mesários da confraria e os mordomos da sua festa anual. Nesse dia sai uma procissão muito concorrida por devotos, muitos vindo de outras freguesias, que dá a volta ao quarteirão que contém a igreja paroquial e cujo ponto de atração é a imagem da Senhora da Luz, carregada de ouro, produto de promessas e doações.

 O ROUBO DO OURO DE N.ª SENHORA – Todo o ouro das promessas e das ofertas feitas à Senhora da Luz desde a criação da paroquia, pesando alguns quilos, foi roubado na madrugada duma segunda feira de Setembro do ano 1918, após a sua festa anual. António de Nóbrega, o Pilro, um moço da Quinta de São João onde sua mãe era criada, em rapaz, um tanto traquinas, foi acusado pelo professor Luis Pedro de Castro e Abreu, genro do morgado de São João, e pelo vigário da freguesia, na altura, o P.e João Jorge Bettencourt, de ter sido o autor do roubo. Luis Pedro de Castro e Abreu, além de professor primário, de fazer de solicitador e de advogado, era também detentor de vários cargos públicos na administração do concelho e na Càmara de Santa Cruz. António de Nóbrega, acusado por testemunhas de peso, foi julgado no Tribunal de Santa Cruz que o condou a cumprir 20 anos de degredo na ilha S.Tomé dos quais, por bom comportamento, apenas cumpriu dezoito anos. Quando o levaram preso para a ilha de São Tomé deixava a mulher e a filha que na acosião tinha dois mezes de idade. Na prisão, partia partia pedra durante o dia e à noite recolha à masmorra. Era muito devota de N.ª S.ra da Luz a quem recorreu durante uma grande trovoada que fulminou sete prisioneiros que se tinham abrigado debaixo dum imbondeiro, tendo ele se salvado com mais dois companheiros, devido a se terem, a seu conselho, acolhido a uma lapa. O verdadeiro ladrão, tendo emigrado para os Estados Unidos da América, na hora da morte, mandou uma carta ao vigário de Gaula, na altura o P.e João Pedro que a leu no púlpito na “missa do dia”. O homem dizia ter sido ele o autor do roubo do ouro de cujo acto estava arrependido e pedia perdão aos gaulezes. Dizia que, ao se sentir perseguido pelo povo que, em grande quantidade e em grande tropel, o vinha perseguindo, tinha escondido todo o ouro numa parede do caminho de concelho, no lado direito da Capela da Mãe de Deus Caniço. A confraria de N.ª S.ra da Luz mandou mesários e homens que escavacaram a parede ao longo de uma grande extenção mas, que se saiba, nada foi encontrado até hoje.

A COROAÇÃO DA PADROEIRA DA FREGUESIA DE GAULA – Em 15/08/1958, numa cerimónia que teve lugar no adro da igreja matriz, o bispo da diocese do Funchal, D.David de Sousa, veio a Gaula coroar a imagem de N.ª S.ra da Luz com duas coroas de ouro cravejadas de pedras preciosas e dois diamantes que pesam1.038 gramas. Essas coroas foram adquiridas devido a uma recolha de donativos pelas pessoas da freguesia, residentes e ausentes, levada a efeito pelo mesário Januário José Lobo, descendente duma familia tradicionalmente devota da Senhora da Luz, à qual aderiram 635 pessoas, entre crianças e adultos, umas com ofertas em dinheiro, desde a menor, no valor de 5$00, à maior, no valor de 6.292$00 e outras em ouro, desde 0,8 gramas a 3,6 gramas. Essas coroas, anualmente exibidas na festa da Senhora da Luz, foram salvas do incêndio de 1964 que destruiu a antiga igreja matriz, devido a estarem guardadas num cofre à prova de roubo e de fogo, adquirido com o remanescente das promessas a das ofertas feitas a quando da campahna de angariação de fundos para a compra das duas coroas para a Senhora da Luz Actualmente, o chamado “o oiro de Nossa Senhora”, do qual fazem parte as duas coroas adquiridas em 1958, peza alguns quilos.

A CRUZ MANUELINA – A igreja de Nossa Senhora da Luz de Gaula possuiu durante séculos, não se sabe desde quando, uma cruz processional de prata, em estilo gótico, recoberta com uma espessa pátina de ouro, muito valiosa pela sua raridade e pelo seu valor artístico que, até 1994, pertenceu à confraria de N.ª Sra da Luz desta freguesia onde se encontrava guardada no respectivo escritório, dentro de rico estojo de pelúcia. Tem 70 centimetros de altura e sem a cobertura de ouro, que lhe foi roubada no ano de 1954, pesa 1730 gramas. Em 1882 foi requisitada a fim de figurar numa exposição de arte ornamental realizada em Lisboa. Em 1994 voltou a ser lavada de Gaula, desta vêz para Sevila, Espanha, a fim de figurar numa exposião durante as comemorações do Tratado de Tordesillas. Depois de ter marcado presença nessa exposição, por ordem do bispo, a cruz gótica da igreja de Gaula, também por ordem do mesmo bispo, acabaria por ficar depositada no Museu de Arte Sacra, como se alguma vêz lhe tivesse pertencido, com a agravante de, despicientemente, nenhum responsável ter dado a mínima satisfação à população da freguesia de Gaula, ou, que mais não fossse, à Confraria de N.a Senhora da Luz, por direito, sua única proprietária e, até então, a sua fiel depositária.

 A PARÓQUIA DA ACHADA – Em 1959, o ispo da diocese do Funchal, D. David de Sousa, ao criar a Paróquia da Achada de Gaula, separando a parte alta da parte baixa, a chamada Beira-Mar, putativamente sem o pretender, acabaria por dividir difinitivamente a freguesia de Gaula em duas partes. Por seu turno, a população da nova paróquia, que seria dedicada à Senhora da Graça, entusiasmada com esta espécie de autonomia, iria de imediato empenhar- se a fundo na construção da garantia dessa mesma autonomia, centrada na sua própria igreja. Graças ao dinamismo e ao empenho da d.ra Maria de Nóbrega e das professoras D. Teresa Bela de Sá e D. Felicidade de Gouveia, em tempo record ergueram um elegante e espaçoso edifiício, dotado de adro bastante amplo e de uma graciosa torre, dotada com sinos e relógios eléctricos, regulados para tanger horas e quartos de hora. As celebrações e os festejos em honra da padroeira da paróquia da Achada de Gaula têm lugar no mês de Agosto, no Domingo logo a seguir à festa da S.ra do Monte. Nesta parte da freguesia foi construido o Cemitério Municipal da Achada de Gaula em terrenos doados em 1975 à Câmara Municipal de Santa Cruz por Manuel de Freitas “Meca”, morador no Pomar do Pico.

 AS FESTAS DE SÃO JOÃO DE LATRÃO – As festividades em honra de São João remontam ao séc, XVI, aos tempos em que eram promovidas pelos primeiros administradores do morgado instituido por Nuno Fernandes Cardoso, no que eram coadjuvados pelos respectivos capelães, nomeadamente o P.e António Alvares (1529) e o P.e Leonel Gonçalves (1571-582), naturais da Lombada da Boaventura. Depois de um longo interregno, estas festividades foram reiniciadas a partir de meados dos anos quarenta do séc. XX, devido ao entusiasmo do Dr. Carlos Jaime Plácido de Castro e Abreu, neto do último morgado, que tendo adquirido as propriedades que restavam do antigo morgado que continham o centenário solar e a capela de São João de Latrão que reconstruiu, lhes deu continuidade condigna. As ornamentações e diversões estavam a cargo dos moradores dos sitios vizinhos, muitos deles descendentes de antigos criados e caseiros do morgado, como tal bem conhecedores das antigas tradições. A parte mais interessante dessas festas concentrava-se num muito participado e não menos colorido cortejo de oferendas destinadas a arrematação com a finalidade de coadjuvar nos custos dos festejos, muito animado com os cantares e os bailares de grupos de “vilhões” constituidos por rapazes e raparigas das redondezas.

 PATRIMONIO CONSTRUIDO

OS MOINHOS – Ainda nos anos cinquenta de mil e novecentos, a freguesia de Gaula era uma terra farta em cereais, com destaque para o trigo, produzido desde a Beira-Mar até aos terrenos baldios das zonas altas, devidamente preparados após o corte dos pinheiros e do arranque dos respectivos tocos, com recurso às tradicionais chamuscas. Para rentabilizar a produção de cereais era necessário construir moinhos e para pô-los a funcionar era necessário dispôr de água corrente, por essa razão as referências feitas á Levadas do Pico dos Iróis e aos moinhos desde os primórdios do povoamento. Ao primeiro moinho da Gaula, o moinho de Pedro Enes, construido cerca do ultimo quartel de mil e quatrocentos, seguiu – se o moinho da familia Salgado. Ambos construidos na Cova do Moinho, deram origem ao sitio chamado a Achada dos Moinhos. Em 1970, dos 13 moinhos então existentes na freguesia se Gaula, quatro ainda estavam em funcionamento. Actualmente, apenas dois deles podem ser postos a funcionar e quanto aos outros, alguns já não existem e dos que existem, as suas mós, ou foram vendidas, ou foram roubadas. Por ordem descendente desde a Cova do Moinho até ao princípio da Fazenda eram os seguintes: os moinhos de Francisco da Mata Salgado, um na Eira de Dentro, na margem esquerda da Ribeira do Porto Novo e outro na Cova do Moinho, um pouco acima do moinho de Silvestre Talasca; na Achada de Cima, o moinho do Pessegueiro; na Achada de Baixo, os moinhos da Anicas e do Tabica; nas Levadas, os moinhos do Marinheiro, do Moleiro, do Morgado e o moinho de António Lobo.

 MOINHO DE MARTINHO VIEIRA TALASCA – Constuido nas faldas do Pico dos Iroses voltadas ao nascente, no lugar chamado a Cova do Moinho, conhecido em 13/09/ 1509, como sendo o moinho de Pedre Enes do Pico dos Irós, funcionava com água da Levada do Pico dos Iroses, ou dos Irós, pelo que a sua construção é anterior a esta data, provavelmente coeva dos primeiros povoadores. Foi sucessivamente reconstruido, tendo funcionado durante a vida de Silvestre Vieira Talasca, seu último moleiro -proprietário que o herdou de seu pai. Moinho de dois pisos, construido num recanto deveras edílico, dele apenas restam o cubo com a sua original rampa de acesso em degraus de pedra partida ladeando a Levada, o peneiro e os alvelos das suas duas moendas já sem as respectivas mós.

MOINHO de MANUEL TAVARES – Construido cerca de 1850 por Manuel Tavares, o velho, na moenda da rala ostenta o ano de 1857. Situado nas Levadas, ocupa o rês do chão duma castiça moradia de dois pisos de quatro águas cobertas de telha romana. A loja do rodízio é um autêntico espectáculo e o cubo, perfeito e elegante, além de especatcular, é uma autêntica obra de arte. Em 1992 a DRAC disponibilizou 500 contos que foram gastos na sua total recuperação. A ctualmente, devido ao estímulo de um intusiasta de moinhos, e á disponibilidade de um moleiro e de um mestre amador, ainda vai resistindo, mas, se continuar votado ao abondono, é evidente que tem os dias contados.

 MOINHO DO CONDE – Construido nos anos quarentaa de mil e novecentos no sítio da Levadas, na margem direita da Levada do Pico Irós, pertence aos herdeiros de José Pereira de Nóbrega “o Conde”, seu primeiro proprietário. Moinho de duas moendas, ocupa o andar térreo de uma moradia de adelo, de dois pisos. Ainda se encontra em razoável estado de funcionamento e só não funciona por falta de cereais, como aliás acontece com os outros três moinhos de Gaula em idêndicas situações de sobrevivência.

MOINHO DO FRIGIDEIRA – Construido cerca de 1850 pelo alferes Manuel Joaquim da Mata, “o Frigideira”, assim chamado devido ao chapéu de abas grandes que usava depois de reformado. Ocupa o rês do chão da casa de moradia do seu construtor, situada no sitio da Fazenda, na margem esquerda de Levada do Pico dos Iroses. António Baptista de Gouveia, morador no do Castelejo, neto materno do “Frigideira”, também ele um experiente mestre de moinhos, foi seu último proprietário, seu último moleiro e mestre. Actualmente, embora em razoável estado de funcionamento, se o seu eatado de conservação não for devidamente acautelado, entrará no caminho errado, aquele que o há-de conduzir, fatidicamente, à sua rápida e irreparável deterioração.

 FONTANÁRIOS PÚBLICOS – Cerca de 1930, o P.e João Jorge Bettencourt, tendo canalizado água, então considerada potável, desde a fonte da Silveira, pertencente à sua sua família, no sitio da Fonte dos Vinháticos, para a sua casa de moradia, sacristia e casa paroquial, também fêz com que parte dessa água fosse abastecer o fontanário público por ele mandado construir na Rua Nova, o arruamento que, construido nessa altura, ladeava pelo poente a igreja matriz da freguesia. Cerca de 1940, a pedido do Dr. Carlos Jaime de Castro e Abreu, proprietário da Quinta e do Solar de São João de Latrão, a Junta Geral do Destrito do Funchal mandou construir o fontenário da Fonte do Lopo, no sopé do Pico da Amoreira, e os fontenários do Caminho da Torre e de São João, todos eles abastecidos com água canalizada desde a Fonte do Lopo. Simultaneamente com a inauguração da água potável em 08/07/1953 foram inaugurados os primeiros fontánarios públicos, cerca de três dezenas, cuja segunda fase ficaria concluida em 1960 com a entrada em funcionamento do fontanário do Cedro no sitio das Beatas. Em 1975, J.Lourenço Freitas, então vereador da Comissão Administrativa da Câmara de Santa Cruz, mandou construir mais três fontanários: um na Levadinha do Pico, um no Pico Norte e outro na Terra Velha com o respectivo lavadouro, abastecidos a partir da segunda galeria de água potável, construida na margem direita do Ribeiro do Pico.

O CEMITÉRIO DO JOGO DO MALHÃO – Em consequência do Decreto-lei de D. Maria II de 02/09/1835ue proibiu a inumação dentro das igrejas, a Câmara Municipal de Santa Cruz mandou construir o primeiro cemitério de Gaula que seria edificado no terreno pertencente aos “próprios nacionais” onde antes se jogava a pela e o jogo da malha, Inaugurado em 02/11/1890, o primeiro cemitério a ser construido no Concelho de Santa Cruz, chamado o Cemitério do Jogo do Malhão, esteve em actividade até 1889. Em Dezembro desse ano, o então vigário de Gaula, P.e Norberto Gonçalves, e representantes dos gauleses, entregaram na Câmara de Santa Cruz um abaixo-assinado contendo um grande número de assinaturas no qual pediam que o cemitério do Jogo do Malhão fosse considerado sagrado durante um periodo de cem anos, pedido que foi deferido, como consta das actas da Câmara. No antigo cemitério do Jogo do Malhão foi construido um campo de jogos, inaugurado em 1985, cinco anos antes dos tais cem acima referidos, pelo presidente da Câmara Municipal. na presença dos representantes civis e religiosos da freguesia de Gaula, e o abaixo-assinado não passou disso.

 O CEMITÉRIO DAS BEATAS – Em 01/01/1865, o vigário de Gaula informou a Câmara de Santa Cruz do estado lamentável em que se encontrava o cemitério do Jogo do Malhão. Devido à pouca permeabilidade do solo, em 13 /5/1897 a Câmara Municipal de Santa Cruz deliberou mandar construir um novo cemitério nas Beatas, cujos 900 m2 de terreno pertencentes ao Barão de Nora, no valor de 50.100 reis lhe foram pagos em 13/03/1897 e as benfeitorias, no valor 55.600 reis, em 28/10/1897 seriam pagas aos respectivos caseiros, João Moreira e Domingos de Freitas, moradores no Lombo. Foi inaugurado em 27 de Novembro de 1898, um domingo pelas10.30 horas, com a presença das autoridades da Câmara Municipal de Santa Cruz, dos funcionários públicos e de muito povo da freguesia.

O MAINEL DA LEVADA GRANDE DO PICO DOS IROSES – Este canal de 17.500 metros de extenção, começado a ser construido cerca das últimas décadas de mil e quatrocentos, à força de braços e deenxada, de malho e de alvião, em 1580 já chegava ao Chão do Porto Novo onde ia regar vinhas e canaviais. Pelos finais de mil e oitocentos, o mainel da levada, então um simples canal escavado no solo extreme, começou a ser melhorado com recurso a argamassa de areia com cimento em substituição da cal. As obras de manutenção e melhoramento do nainel da levada foram uma constante ao longo da segunda metade do séc. XX. Em meados desse século o novo canal estava concluido até ao terminus da levada, todo ele feito em cimento, com os seus dormentes para acubranhar o ímpeto da água na sua descida, que ao mesmo tempo serviam de represas para a água da serventia dos casais e para bededouro do gado vacum, melhoramento de grande utilidade que haveria de servir a população da freguesia de Gaula até à construção dos fontanários inaugurados em 1957.

 O SOLAR DE SÃO JOÃO DE LATRÃO – Um grande e belo edificio do século XVIII, constituido por quatro corpos de quatro águas cada um, cobertos de telha romana construido em substituição das antigas pousadas do morgado, uma simples casa coberta de telha de acordo com o inventário dos bens de D. Catarina Drumond, viuva do morgado Simão Teixeira de Almada Cardoso,feito em 1730. Construido por fases a partir da administração do morgado Manuel Teixeira de Almada Cardoso, falecido em 24 de Janeiro de 1725 e de seu filho, o morgado capitão Manuel da Câmara Bettencourt Cardoso, casado em Gaula, em 12 de Abril de 1754, com D.Maria Michaela deVasconcelos Menezes e falecido em 7 de Outubro de 1774, o primeiro filho e o segundo neto do morgado Simão Teixeira Cardoso e de D. Catarina Drumond Vieira. Já bastante degradado, assim como a respectiva capela de São João, no tempo de Nuno Fernando Cardoso de Vasconcelos, último morgado de São João, foi restaurado pelo Dr. Carlos Jaime Plácido de Castro e Abreu, seu neto que, em 1949, também construiu a actual capela de São João de Latrão.

 O SOLAR DE N.ª S.ra DA ASSUNÇÃO DA TORRE – Vem referido a primeira vêz, nos livros paroquiais de Gaula, em 15/10/1675. Os herdeiros do Conde da Calçada, Diogo de Ornelas de França Dória Carvalhal Frazão Figueiroa, falecido em 1909, foram os seus últimos proprietários que o venderam, com as respectivas fazendas, aos filhos de dois dos seus caseiros, cujo filho de um deles haveria de pegar fogo ao solar e à capela. O solar seria reconstruido e hoje apresenta-se com um piso térreo e um sobrado com acesso por uma grande escada exterior, emcujos fundamentos estão enterrados os mosaicos da capela e do antigo solar. Da capela de N.ª S.ra da Assunção, votada ao abandono após o incêndio, apenas restam algumas paredes. Da antiga quinta restam os muros, em parte degradados, e o portão da entrada, à direita da qual, na parede ao lado do bebedouro dos cavalos, em frente da antiga cavalariça, ainda se pode observar uma gravura com as armas dos Ornelas e Vasconcelos.

 AS CASAS DO Séc. XIX – Até ao último quartel do séc. XIX muitas das casas gaulesas, que não foram excepção em relação às casas das demais freguesias da ilha, eram palhaças, terreiras na sua grande maioria, do tipo “casa quanto caibas, terras que não saibas”, contrastando com o relativamente pequeno número de moradias pertencentes a lavradores mais afazendados, mais espaçosas e dispondo de escadas para o balcão de pedra nua que dava acesso às tizoiras da casa, ou sotão. Um inventário feito às casas palhaças que transitaram do séc. XIX para o séc. XX, deu conta de sessenta dessas moradias, algumas delas ainda existentes no último quartel desse mesmo século. A maioria eram construidas com paredes de pedra solta entremeadas de terra, para as tornar frescas no verão e quentes no inverno; outras eram de pedra e cal, rebocadas por dentro, dispondo na sua grande maioria de uma parede delgada, ou tabique de cana vieira e aparas de madeira, revistido de cal e areia, a separar os dois quartos, espaçosas quanto bastasse; algumas tinham uma janela numa parede, outras um simples janelico na porta exterior; algumas eram sobradadas e assoalhadas, à excepão da cozinha, pavimentada com terra batida, por vezes calçada, a maior parte com cozinha em taimeira, sem chaminé. Outro inventário, relativo à mesma época, feito a partir do ano de1818, deu conta de 44 casas sobradas e cerca de outras sessenta rasteiras, ou terreiras, todas de quatro águas cobertas com telha romana, ou encanudada, também chamada telha mourisca, ou telha de Marrocos. Pertenciam a proprietários que reconhecemos como tendo sido pessoas dotadas de posses, maioritariamente feitores, adelos, mareantes, comerciantes, e agricultores que podiam ser simples caseiros afazendados, não detentores de terras livres.”

 J.Lourenço de G. e Freitas

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Gaula no Elucidário Madeirense:

“Gaula (Freguesia de). Os medianamente versados na historia da literatura portuguesa conhecem a celebrada novela de cavalaria Amadis de Gaula, atribuída a Vasco de Lobeira e cuja origem, língua em que foi escrita, época da sua redacção, etc., têm sido objecto de diversos trabalhos de critica literária e de investigação histórica, especialmente nos livros de Teofilo Braga-Introdução e Theoria da Historia da Literatura Portugueza, Poetas Palacianos e Amadis de Gaula. Existirá alguma correlação entre o nome dado a esta paróquia e o da famosa novela? O Dr. Alvaro de Azevedo não o nega nem afirma, fazendo uma referência vaga e ambígua á freguesia de Gaula, quando trata do romance narrativa e dos cultores que ele teve neste arquipelago. Parece ter querido propositadamente esquivar-se a emitir uma opinião, que porventura poderia ser alcunhada de arriscada ou temerária. No entretanto, transcrevamos as palavras do anotador das Saudades: « Tristão de Léonois, Lancelot do Lago, e Yseult, são desses personagens; Gaula é a pátria do protagonista de uma dellas; Amadis de Gaula é o título da celebre novella attribuída ao nosso Vasco de Lobeira, contemporâneo de D. João I. E nestas ilhas abundaram, nos princípios deste período, os Tristões, desde Tristão Vaz, ou simplesmente Tristão, Tristão da Ilha, primeiro capitão donatario de Machico, assim designado, não por inferioridade em referência a Zargo, mas ao revez, por uma espécie de celebridade poética do nome, em honra de sua singular cavallaria e nobreza,» como escreve Fructuoso, copiado por Antonio Cordeiro, na Historia Insulana, liv. III, cap. IX, § 54: houve também nestas ilhas mais de um fidalgo chamado Lançarote, manifesta corrupção de Lancelot: Bartholomeu Perestrello, primeiro donatario da ilha de Porto-Sancto, poz a sua segunda filha o nome de Yseu, ou Hiseua, também clara viciação de Yseult: e, finalmente, Gaula, é denominação de então dada aos vastos terrenos a oeste da villa de Sancta-Cruz, que formam, desde 1558, a freguezia de Gaula.»

O Dr. Teofilo Braga refere-se ao assunto, quasi em idênticos termos aos do Dr. Alvaro de Azevedo, no seu livro Amadis de Gaula, donde trasladamos os seguintes períodos:- «E para notar, que no único ponto aonde a tradição portugueza conserva o romance de Lancelot, é onde há mais vestígios de um conhecimento do Amadis na sociedade aristocrática: o nome de Grimanesa, amante de Apolidão, senhor da ilha Firme, era também o da mulher de Tristão Teixeira, terceiro capitão de Machico. «O quarto e ultimo filho do capitão Tristam se chamou Lançarote Teixeira: foi um dos melhores ginetarios da ilha; porque além de por sua inclinação ser mui bom cavalleiro, tinha mui grande mão para domar cavallos, e era dado muito a isso, em tanto que em seu tempo se ajuntavam na villa de Machico sessenta cavalleiros de esporas douradas muito bem postos, e encavalgados por indústria deste Lançarote Teixeira, que quando vinha um dia de Sam João ou do Corpo de Deus, eram tantos os cavalleiros para jogos de canas e escaramuças, que mais parecia exército de guerra que folgar de festa: e além de todos serem mui destros nesta arte, elle todavia tanto se divisava entre elles, que se pode com razão dizer que foi luz e ornamento de Machico.» Deste Lançarote Teixeira nasceram além doutros filhos, um chamado Lançarote Teixeira de Gaula, e uma filha que casou com Fernão Nunes de Gaula. Gaspar Fructuoso descreve este lugar arredado de Machico: «Andando mais adiante desta ribeira (da Boaventura) quase uma legoa, está uma povoação de trinta visinhos do mesmo termo de Santa Cruz, que se chama Gaula, e tem muitas vinhas de malvasias e muitas vinhas de outras castas». A influencia da novella do Amadis de Gaula neste mesmo local facilmente se prova, sabendo que esse Lançarote Teixeira de Gaula era neto de Tristão Teixeira das Damas, poeta amoroso do Cancioneiro de Resende: «Chamou-se-lhe das Damas, porque foi muito cortesão, grande dizidor e fazia muitos motes ás damas, e era muito eloquente no fallar. Este poeta, casado com D. Guiomar de Lordello, dama da Excellente Senhora, era contemporâneo de Azurara e o seu caracter e gosto por força o faria conhecer das aventuras do Amadis de Gaula»

“O que fica transcrito, não se pode logicamente inferir que haja qualquer correlação entre o nome dado a esta freguesia e a existencia da celebre novela de cavalaria. Embora Teofilo Braga afirme que a influencia do Amadis de Gaula neste mesmo local facilmente se prova, a verdade é que o facto de existirem em Gaula um Lançarote e a neta de um Tristão, personagens dos romances de cavalaria da novela do Amadis, isso não constitue um argumento que nos leve a estabelecer a identificação dos nomes da freguesia e da novela. Cumpre observar aqui que nos assentos mais antigos do registo paroquial, a começar por meados do século XVI, se encontra sempre o nome desta freguesia com a grafia de Guaula, que parece ser o nome primitivo que uma corrutela popular transformou em Gaula. Isto mais afasta ainda a ideia de qualquer próxima afinidade entre os dois nomes.

Esta freguesia foi constituída por terrenos que pertenciam á paróquia e vila de Santa Cruz, donde foi desmembrada pelos anos de 1558. Não temos encontrado noticia de que existisse ali uma capela, que houvesse sido a sede da nova freguesia. O respectivo pároco teve primitivamente a côngrua anual de 12.300 réis, que o alvará de D. Sebastião, de 9 de Junho de 1572, elevou a 20$000 réis, sendo então vigário Fr. Diogo Moreno. Os alvarás subsequentes de 9 de Junho de 1581, de 20 de Janeiro de 1589 e de 4 de Julho de 1592 aumentaram sucessivamente o vencimento do pároco, que o ultimo diploma fixou em 16$000 réis em dinheiro, uma pipa de vinho e um moio e meio de trigo. Jorge Rodrigues, Diogo Fernandes e Fr. Diogo Moreno foram dos mais antigos sacerdotes que exerceram funções paroquiais nesta freguesia. A sede da paróquia instalou-se numa capela que já ali existia ou que foi construída por ocasião da criação da freguesia e que ficava a leste e a não grande distancia da actual igreja paroquial. A pesar de ser um templo de acanhadas dimensões, foi a sede da paróquia num período aproximado de dois séculos. O mandado do Conselho da Fazenda de 17 de Outubro de 1753 autorizou a edificação de uma nova igreja, cujas obras foram arrematadas pelo pedreiro Manuel Rodrigues pela importância de 3:400$000 réis. Ignoramos quando se concluíram as obras de construção e em que ano se procedeu á bênção do novo templo. O campanário foi construído em 1915, dispendendo-se nele a quantia de 1.800$00. Tem esta igreja paroquial uma artística cruz de prata, que, em 1882, figurou na Exposição Retrospectiva de Arte Ornamental, realizada em Lisboa, e que no respectivo catalogo vem assim descrita: «Cruz processional de prata dourada com a imagem de prata branca, e tendo as extremidades com a forma de flor de liz. Appoia-se numa base hexagonal representando um castello, defendido por seis gigantes com corucheus de estylo gothico. Altura, Om,70. Século XV.».

Teve esta freguesia as capelas de São João de Latrão, no sítio que ainda hoje conserva este nome, e a de São Marcos, no sítio do Porto Novo, das quais nos ocuparemos em outro lugar. São principais sítios: Porto Novo, Fazenda, Levadas, Achada de Baixo, Achada de Cima, Achada da Rocha, Salgados, Pico, Cova do Moinho, Faia, Lombo, Fonte, Povo, Lobos, Furtados, Salão, Torre, Fonte do Lopo, Fazendinha São João, Castelejo, Aldonça, Beatas, Lombadinha, Lajeas, Farrobo e Contenda. Entre os sítios merece especial menção o da Achada, conhecido pela Achada de Gaula, onde se encontra um grande agrupamento de casas de habitação, muitas das quais rodeadas de altos buxos, que as abrigam dos ventos e que dão ao local um aspecto bastante interessante e pitoresco, local que tem grandes traços de semelhança com a encantadora freguesia de Sant’Ana, até na constituição do próprio terreno. Do Pico dos Eirós, que domina as freguesias da Camacha, Santo da Serra e Caniço, descortina-se um vasto e surpreendente panorama, que pelo lado de leste se estende até a Ponta de S. Lourenço. O sítio da Lombadinha merece particular referência por ter sido noutro tempo quasi exclusivamente foreiro ao Cofre de Cativos, que tinha a sua sede em Lisboa e que se destinava ao resgate dos portugueses que ficavam prisioneiros dos mouros em Marrocos, onde sofriam os maiores ultrajes e as mais duras crueldades.

É esta freguesia irrigada pela levada do Pico dos Eirós, que é a mais importante, e nasce dentro dos limites da paróquia, a da Ribeira da Metade, que tem sua origem no ribeiro da Junça, na freguesia da Camacha, e a levada da Roda, cujo caudal vem da freguesia de Santa Cruz. A paróquia é separada das freguesias do Caniço e Camacha pela ribeira do Porto Novo em cuja foz se encontra um pequeno porto com este nome, que é o mais importante da freguesia e onde a Junta Geral fez construir um pequeno cais ou desembarcadouro há cerca de quinze anos. Em Setembro de 1873 chegou ao Funchal a corveta norte-americana Supply, que não teve livre pratica por proceder dum porto onde grassava a colera-morbus. Dois escaleres deste vaso de guerra tentaram fazer um desembarque de gente no Porto Novo, ao que energicamente se opuseram os habitantes do lugar, tendo esta atitude dos gauleses obrigado os marinheiros americanos a desistir do seu intento. Também há nesta freguesia o insignificante porto de Aldonça, tendo num ponto que lhe fica sobranceiro mandado construir o capitão-general Sebastião Botelho um pequeno forte no ano de 1820.

Afirma-se que, em outro tempo, ao ser um habitante desta freguesia interrogado acerca da sua naturalidade, respondia invariavelmente: sou; de Gaula, você que se importa, se a pregunta era feita na época das amoras, que ali abundavam, ou então sou de Gaula por meus pecados, se a resposta era dada passada a época da colheita daquele fruto. A pregunta ainda hoje frequente e intencionalmente se repete, mas em geral não obtém resposta, porque o gaulês vê nela uma ofensa ou um motivo de irrisão ou escárnio para a freguesia da sua naturalidade. Nuno Fernandes Cardoso, que era filho de Fernão Nunes Cardoso, «filho de linhagem», no dizer dos nobiliarios, veio para esta ilha pelos fins do século XV e teve largas terras de sesmaria na freguesia de Gaula, onde instituiu em 1511 o morgadio de São João de Latrão. Seu filho primogénito, Pedro Nunes Cardoso, foi, segundo afirma H. H. de Noronha, corregedor do crime da corte, desembargador da Casa do Porto e herdou nesta ilha o morgado de seus pais, morrendo em Gaula a 17 de Maio de 1552 e sendo sepultado na capela de São João de Latrão. Um irmão deste, por nome Diogo Nunes Cardoso, estudou em Coimbra e na Itália, onde se doutorou, e foi desembargador do Paço. Deste Diogo Cardoso foi filho Tomaz Nunes de Afonseca, que, diz um antigo nobiliario, «estudou em Coimbra e foi corregedor do crime na corte e depois de haver servido a el-rei em negocios de muita importância veiu a esta ilha, onde tinha herdado o morgado de Gaula de seu avô, por falta de sucessão de seu tio Pedro Nunes Cardoso». 0 ultimo representante desta casa vinculada foi Nuno Fernandes Cardoso e Vasconcelos, avô de Luiz Cardoso de Castro e Abreu, actual professor desta freguesia de Gaula. (V. S. João de Latrão).

O orago desta paróquia é Nossa-Senhora da Luz e tem a freguesia 3.120 habitantes.

No dia 28 de Março de 1932, faleceu nesta freguesia, onde nascera e exercia as funções paroquiais, o padre João Jorge Bettencourt, que, sendo um sacerdote das mais acrisoladas virtudes, se distinguiu como jornalista, havendo durante alguns anos sido o redactor principal dum jornal diário que se publicou nesta cidade. Recentemente surgiu a ideia de atribuir-se a origem do nome desta freguesia a uma família de apelido Gaula, que ali houvesse feito assentamento nos tempos primitivos da colonização, mas a verdade é que esse nome não deixou vestígios entre a população nem ficou registado nos livros do respectivo arquivo paroquial. Vid. Diario de Noticias de 19 de Maio de 1929.” -  in Elucidário Madeirense, Vol. II.

Caniço, a freguesia e a sua história

April 16th, 2009

… Continuação do texto daqui

“Dentre estes povoadores alguns havia de origem fidalga, que conservaram os seus privilégios de nobreza e aqui fundaram varias casas vinculares, devendo destacar-se a da Consolação, instituída por Álvaro de Ornelas, que é das mais antigas da Madeira e data dos fins do século XV, e o morgadio fundado por Vasco Martins Moniz, o de Matos Coutinho e o de João Afonso. O aumento de novos povoadores com a sua mais próxima descendência, formaram dentro de poucos anos um núcleo muito importante de população, que logo aconselhou a criação duma paroquia. A maior densidade dos casais estendia-se pelas duas margens da ribeira, que era a divisória das duas capitanias. Dum e doutro lado desta linha de água se levantaram duas igrejas paroquiais, tendo a da margem direita o orago do Espirito Santo e a da margem esquerda o de Santo Antão. Os terrenos que ficavam em torno da primeira tinham a denominação de Caniço para a cidade e os que ficavam em torno da segunda chamavam-se Caniço para Machico. Estas designações indicavam claramente as capitanias a que pertenciam.
Devemos com bons fundamentos supor que rivalidades de jurisdição ou desinteligências havidas entre os habitantes das duas margens da ribeira, determinassem a construção das duas igrejas, situadas a tão pequena distancia uma da outra, não se conhecendo motivo algum plausível que justificasse essa construção. Elas implicavam a criação de duas paroquias, que apenas existiram nominalmente, pois sempre tiveram apenas um pároco a servi-las, embora durante alguns anos os ofícios do culto se realizassem alternadamente nas duas igrejas. …
«…A existência antiga de duas igrejas paroquiais é mais uma singularidade desta freguesia o que não veio a acontecer em outra localidade da Madeira. Delas, infelizmente, não restam vestígios senão algumas alfaias e imagens, como relíquias sagradas dos primeiros tempos do povoamento. Mas é sabido que o tamanho exíguo e o estado precário da antiga ermida, feita em pedra e barro, bem pertinho das águas do mar e do ímpeto furioso da ribeira que no inverno corria caudalosa, impeliu os moradores à edificação de uma nova igreja, mais ampla e feita de material mais consistente, capaz de comportar os moradores. Mas, em vez de surgirem de uma surgiram duas, porque os moradores das duas bandas da ribeira a queriam nos seu lado. Esta rivalidade já, então, existente e porque em ambos os lados havia gente importante condicionou então o fabrico de duas igrejas. Não obstante, uma tinha primazia sobre a outra, muito embora servidas por um único pároco que assinava: “Pároco que sou das duas igrejas”. A existência destas duas igrejas vem já mencionada numa carta que el-rei D. Manuel enviou a D Diogo Pinheiro, Bispo do Funchal, pedindo a confirmação do Pe. Gonçalo Afonso para capelão delas o que se verificou a 1 de Fevereiro de 1500. A referida carta reza assim: “Dom Manuel, por graça de Deus Rei de Portugal e dos Algarves, de Aquém e de Além Mar em África, Senhor da Guiné e da Conquista e Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Ìndia, fazemos saber a Vós Doutor Dom Diogo Pinheiro do nosso concelho e Vigário de Tomar que confiando Nós da bondade e descrição do Gonçalo Afonso Clérigo da Missa e como cumpre o serviço de Deus e nosso e bem do povo, e querendo lhe fazer graça e mercê Nós o apresentamos, hora novamente, por Capelão da igreja de Santo Antão do lugar do Caniço, termo de Machico e por capelão de Santo Espírito Santo do dito Caniço da jurisdição do Funchal, porém vos encomendemos que o confirmes nas ditas capelanias e lhe mandes fazer sua carta em que faça menção que o confirmes assim a nossa apresentação, com as quais capelanias queremos que haja, em cada ano, meu mantimento do que hão os Vigários da dita Ilha. A 28 de Janeiro Gaspar Rodrigues a fez ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil e quinhentos”. Daqui se infere que no ano de 1500 já estavam construídas as duas igrejas. …» – Transcrito da pesquisa sobre o Caniço de Pe. Silvério da Assomada em 2002.
Parece que a igreja de Santo Antão, situada na margem esquerda da ribeira, foi com o decorrer dos tempos ganhando uma certa supremacia sobre a do Espirito Santo, sendo esta a primeira que começou a entrar em ruínas e a ser inteiramente abandonada. O Dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo assinala o ano de 1440, como o da criação desta paróquia, sendo certo que é uma das mais antigas desta ilha. O erudito anotador das Saudades da Terra coloca a igreja do Espirito Santo na capitania de Machico e a de Santo Antão na capitania do Funchal, o que não é exacto, segundo pudemos verificar em documentos existentes no arquivo desta freguesia. O serviço paroquial começou simultaneamente nas duas igrejas? E, no caso contrario, qual das duas teria tido a primazia no exercício dos actos do culto? Não o sabemos dizer.

Como acima fica indicado, já em 1538, se exerciam as funções culturais nas duas igrejas, tendo o alvará régio de 21 de Fevereiro de 1558 acrescentado a côngrua do respectivo pároco, que ficou sendo de 8$300 réis anuais. No Índice Geral do Registo da Antiga Provedoria da Real Fazenda da Ilha da Madeira se lê: «alvará de 25 de novembro de 1572 a favor do vigário Belchior Mourato, de acrescentamento de 2.200 reis, dois moios de trigo e uma pipa de vinho sobre os 8.300 que já tinha, para ter o total ordenado de 25.000 réis, arbitrado pele Mesa da Consciência aos vigários que tivessem mais de 100 fogos, reputado o moio de trigo em 6.000 reis e a pipa de vinho em 2.500 reis”. No período decorrido de 1538 até o fim do século XVIII, foram párocos desta freguesia Antonio Pires Cabral, Belchior Mourato, Francisco de Sousa, Jeronimo Teixeira de Góis, Vicente Luiz, Jeronimo Gomes de Agrela, Andre Moniz de Meneses, Manuel Gomes Jardim, João Baptista Spinola, Pedro Pereira da Silva, José Lomelino Barreto e Antonio Francisco Spinola. O padre José Lomelino Barreto, que tanto diligenciou a construção da nova igreja e para ela ofereceu o terreno necessário, paroquiou na freguesia do Caniço num período superior a 40 anos. Teve a igreja paroquial do Caniço o cargo de tesoureiro, sacerdote encarregado de auxiliar o vigário nos serviços do culto e em especial na parte administrativa dele, sendo este lugar criado anteriormente a 1550, pois que um alvará régio de 6 de Fevereiro desse ano lhe acrescentou o vencimento e o fixou e 6$000 réis em dinheiro e trinta alqueires de trigo anuais, tendo por outros diplomas datados de 18 de Setembro de 1608, 4 de Julho 653 e 28 de Setembro de 1668 sido novamente aumentada essa côngrua, passando definitivamente a ser de 10$000 réis por ano em dinheiro e um moio e meio de trigo e uma pipa e meio de vinho. Este logar foi extinto por alvará régio de 27 de Dezembro de 1676.
O curato desta freguesia teve sua criação por alvará de 20 de Outubro de 1605, coexistindo com o logar de tesoureiro durante anos, sendo de 20$000 réis a sua côngrua anual. Foram Lopo Gomes Vieira, Vicente Luiz e Joronimo Gomes de Agrela os primeiros sacerdotes que aqui exerceram esse logar. Também houve nesta igreja o cargo organista, que percebia o vencimento de alqueires de trigo por ano. Da capela que aqui existiu, com o seu capelão privativo, antes da criação da paroquia nada podemos dizer relativamente ao ano de sua construção, nem do local em que foi erguida. Igualmente ignoramos se teria ela sido transformada em igreja paroquial quando se deu a criação da freguesia. Estamos na mesma ignorância com respeito á edificação das igrejas do Espirito Santo e Santo Antão, situadas em cada uma das margens da ribeira que dividia as duas capitanias.

Em 1778 achava-se inteiramente destruído o primeiro daqueles dois templos e o segundo em adiantado estado de ruína. Anteriormente a esta época tinham-se empregado aturados esforços para a construção duma nova igreja, que resultaram sempre infrutíferos, havendo-se também levantado serias desinteligências acerca do local preferido para a sua construção querendo uns que fosse na margem esquerda da ribeira e outros na margem direita. Eram as antigas rivalidades que ressurgiam. Os bons ofícios do vigário de então, o padre José Lomelino Barreto, que no caso interpôs o valimento e influencia de certas entidades oficiais, conseguiram remover todas as dificuldades, tendo a soberana, por sua ordem de 3 de Março, mandado proceder á construção do novo templo, que é a actual igreja paroquial. Os terrenos para esta edificação foram generosamente cedidos pelo padre José Lomelino Barreto, tendo-se lançado a benção da pedra angular a 2 de Agosto de 1779 e havendo-se benzido solenemente a nova igreja no dia 2S de Outubro de 1783. No seu frontispício lê-se numa lapide a seguinte inscrição: Sancto Spiritui Paraclito atque divo Antonio abbati sacrum Maria 1ª. Lusitan. regina fideliss. equestris D. N. J. C. ordinis gubernat aedificavit: insulano tribunali régio curante. Anno )I). IDCCLXXX regni autem IIII. Gaspar Frutuoso referindo-se ao Caniço, relativamente ao ano de 1590, em que escreveu as Saudades da Terra, diz o seguinte: «Daqui adiante quase meya legoa está huma aldeya de duzentos fogos, com huma igreja da invocação do Spirito Sancto, que se chama o Caniço, em huma ribeira que corre do Norte para o Sul, acompanhada de muitas vinhas de muitos vidonhos e de boas malvazias. Ao mar deste logar está a Ponta de Oliveira, onde se plantou huma por baliza da repartição das duas Capitanias, que por esta ribeira se partem, ficando a de Machico ao Nascente, e a do Funchal ao Ponente, e por ella dizem que vai a demarcação da borda do mar do Sul até a outra banda do Norte; porque deste Caniço até o longo do mar haverá hum quarto de legoa, onde está o porto em que se carrega tudo o que ha nesta parte. E chama-se Caniço de baixo, a respeito do outro que Caniço de cima he chamado ». Por meados do século XV, quando se criaram as vilas do Funchal e Machico, foram também criados nesta ilha uns dez logares, que eram povoações intermediarias entre a paroquia e a vila, contando-se neste numero a freguesia do Caniço, o que prova a sua já relativa importancia naquela época. Do Caniço se desmembrou a Camacha em 1676.

Em outro tempo eram muito frequentes as comunicações entre as Desertas e o Caniço, devido talvez á circunstancia dos pescadores desta freguesia frequentarem as aguas daquelas ilhas. Sem fazerem parte desta paroquia, era no entretanto no Caniço que os barcos das Desertas aportavam mais vezes, e ate para ali conduziam os cadáveres dos que morriam naquelas solitárias ilhas. Ainda não há muitos anos que os trabalhadores ali empregados nos trabalhos de caça e pesca eram recrutados na freguesia do Caniço.
Foi natural desta freguesia Manuel do Nascimento Nobrega. Também aqui nasceu o Padre Jeronimo de Nobrega, que embarcou para a America do Norte e ali granjeou fortuna avultada. Por varias vezes enviou para esta ilha, destinadas a estabelecimentos de caridade, somas bastante consideráveis, que chegaram a muitos contos de réis. Também ofereceu á igreja da sua paroquia natal algumas ricas alfaias.
Entre os acontecimentos que mais possam interessar á historia do Caniço, destacam-se os sucessos que se deram com as tropas liberais e miguelistas, quando em 1828 atravessaram esta freguesia, e os lamentáveis episódios dados por ocasião das supostas reuniões da Junta de Paroquia. 
Entre os privilégios e regalias concedidos a João Gonçalves Zarco, figurava o de que «ninguém nom faça y moynhos, soomente elle ou quem lhe prouuer». Afirma-se que o primeiro moinho que houve na Madeira foi construído nesta freguesia, e ainda ali existe um sitio com o nome de Azenha, que não podemos no entretanto assegurar que se refira aquela primitiva e de certo muito rudimentar fabrica de moer cereais.
O plantio da cebola quase que na Madeira se restringia a esta freguesia, sendo nela muito considerável a sua cultura. Ainda é o logar que mais abundantemente produz este género agrícola, mas o seu cultivo está actualmente bastante reduzido. Chegou a produzir 30:000 pesos, num valor aproximado de trinta contos de réis, destinados na sua quasi totalidade á exportação.
Existe uma pequena industria local, que se pode considerar privativa desta freguesia e que consiste no fabrico de chapéus feitos de folha de palmeira, usados pelos homens do povo. Têm em consistência e grande duração o que lhes falta em elegância e maleabilidade. Ha duas escolas, sendo uma do sexo masculino, criada por 1821, e uma de sexo feminino, de mais recente criação.
Além da levada da Serra, é o Caniço irrigado pelas levadas do Pico do Arvoredo, de Baixo e da Azenha, sendo cada uma constituída por uma sociedade de heréus e tendo a primeira os seus estatutos publicados no Diário do Governo de 31 de Outubro de 1877. Estes mananciais têm todos a sua origem na Camacha. É esta freguesia atravessada por uma ribeira, que tem diversos nomes segundo os lugares ou sítios por onde passa, e que nasce na freguesia da Camacha. Tem um sofrível porto o dos Reis Magos, onde há cerca de 20 barcos de pesca. Existe um pequeno desembarcadouro na ponta da Oliveira. Principais sítios desta paroquia: Tendeira, Moinhos, Assomada, Atalaia e Portinho, Madre de Deus, Zimbreiros, Caniço para Machico, Barreiros, Pedra Mole, Castelo, Serralhal e Amoreiras, Caniço para a Cidade, Vargem, Azenha, Ribeira dos Pertetes, Livramento, Vale, Quinta, Abegoaria e Palheiro do Ferreiro. ”
(…..).” in  Elucidário Madeirense, cit. em http://www.jf-canico.pt/